Quando ser deficiente, faz toda a diferença

Ontem, domingo, enquanto gozava meu ócio criativo em sua plenitude, navegando por uma rede social, fui tocado por uma postagem que falava de um jovem autista e cego, que participou de um desses shows de talentos, tão comuns hoje na TV. Não bastasse isso, logo na sequência li uma outra publicação que falava de um pai famoso e as dificuldades que encontrou para assumir publicamente o autismo do filho, e o quanto isso foi revelador quando a família conseguiu vencer essa barreira.

Importante saber que, como a maioria das pessoas, costumo apenas dar um like nas postagens (para não desagradar quem publicou), mas dessa vez, realmente, acho que encontrei ali a inspiração para o texto da semana. Mas fique tranquilo, não vou discorrer aqui sobre a política de inclusão no Brasil, nem tampouco vitimizar os “pobres” deficientes, que sofrem preconceito e discriminação. Nosso mote aqui é outro, vamos falar de potencialidades e superação.

Em tempo, (apenas para não perder o hábito) a Lei Brasileira da Inclusão (LBI)), também chamada de Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), que afirmou a autonomia e a capacidade desses cidadãos para exercerem atos da vida civil em condições de igualdade com as demais pessoas foi promulgada em 06 de Julho de 2015. A partir dela passou-se a discutir a necessidade de uma Escola Inclusiva, como obrigatoriedade para oportunizar o acesso a deficientes e não-deficientes a Educação. Só que não. É mais fácil construir rampas, e adaptar banheiros, do que quebrar muros e abrir portas para que esses indivíduos possam ser valorizados por suas potencialidades, e não pelas deficiências que apresentam.

Mas vamos então às personagens dessa história. Lembrando que temos inúmeros exemplos no Brasil de figuras públicas no esporte, nas artes e em tantas outras áreas que seriam bons exemplos de superação para nosso texto, mas ainda incomodado pelo post que recebi, decidi apresentar um pouco das histórias de vida de um artista, uma youtuber e de uma professora. Ilustres desconhecidos do grande público.

Kodi Lee é um jovem americano de 22 anos, autista e cego. Sua história começa para nós quando, acompanhado de sua mãe, Tina Lee, foi se apresentar em um famoso programa de talentos americano. Sua mãe conta que, desde cedo a música transformou a vida de Kodi, e através dela ele pode mostrar todo seu talento como artista.  Como seria de se esperar, quando o jovem entrou no palco, ficou nítida aquela cara tipo assim “o que esse cara tá fazendo aqui”, mas poucos minutos depois o jovem artista colocou abaixo a plateia e os jurados, executando ao piano e cantando uma linda canção que emocionou a todos.

Dani Amaral é uma linda jovem de 22 anos, Youtuber e palestrante motivacional. Sua história começa quando, aos quatro anos de idade, perdeu os dois braços arrancados em um acidente, por uma máquina agrícola. De lá para cá sua história de vida é só superação, pois ao invés de se esconder, foi à luta e desenvolveu uma incrível capacidade de fazer com os pés, tudo que deveria ser feito com as mãos. Estudou, formou-se e hoje mantém um canal no Youtube – DANI-SE – onde fala de desenvolvimento pessoal, autoestima e autoconhecimento, sobre suas palestras e treinamentos e ainda apresenta um pouco do seu dia-a-dia. Dani hoje é totalmente autossuficiente, casada e vive do seu trabalho como Youtuber e palestrante.

Débora Seabra de Moura, primeira professora com síndrome de Down do país. Filha de uma advogada e de um médico, Débora foi criada para ser uma vencedora. Infelizmente sua história só ganhou notoriedade quando uma desembargadora fez um comentário preconceituoso em uma rede social, duvidando da sua capacidade de ensinar. A própria Débora respondeu através de uma rede social que “Ensino muitas coisas para as crianças. A principal é que elas sejam educadas, tenham respeito pelas outras, aceitem as diferenças, ajudem a quem precisa mais”.  Além de trabalhar como professora auxiliar em uma escola de educação infantil de Natal há 13 anos, já publicou um livro infantil “Débora Conta Histórias, coletânea de contos sobre diversidade”, em 2013 pela editora Alfaguara, e faz palestras sobre os direitos das pessoas com deficiência em todo o país, além de ter participado da III Conferência do Dia Internacional da Síndrome de Down na Organização das Nações Unidas, em Nova York, em 2014.

E aí, me diga então, quem é o deficiente? Tocar piano já é algo difícil para quem enxerga (desconheço a existência de métodos de ensino de piano para cegos, ou mesmo partituras em braile), imagina para quem não enxerga e vive em um mundo paralelo, só seu. Experimente fazer as coisas mais simples do seu dia-a-dia como escovar os dentes, ou ainda tomar um banho, ou ainda cozinhar, com os dois braços amarrados, usando para isso apenas os pés. E digo mais, quantas pessoas não conseguem se formar em uma faculdade, e ainda tem aquelas que se formam e depois não arrumam colocação na área, e tornam-se pessoas frustradas. Imagine então uma professora que vencida a formação (alguns poderiam dizer que ela foi “empurrada” na faculdade, por isso tem o diploma) já atua há 13 anos no magistério, trabalhando com crianças na fase de alfabetização, portanto, as deficiências fonológicas próprias do Down poderiam ser um empecilho, e foram superadas, e ela e ainda teve a capacidade de escrever um livro e dar palestras?

Bem, não sei você, mas eu estou me sentindo profundamente deprimido diante desses exemplos vivos de potencialidades e superação, pois sendo eu um dito “normal”, que não possuo (pelo menos diagnosticado, ainda) restrições cognitivas, sensoriais ou motoras, não consigo tocar piano, não consigo usar meus pés como se fossem minhas mãos nem tampouco ainda escrevi um livro infantil de contos. É, acho que realmente, o deficiente nessa história somos todos nós, que ainda nos prendemos mais à forma e à imagem, e nos esquecemos que por detrás de um corpo disforme, pode existir uma alma genial, apenas esperando que lhe seja dada a oportunidade de se mostrar.

Professor Sérgio Soares

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