Dia desses, passando pela pacata Prosperidade, parei para tomar um café na venda do Lazin, octogenário de muita prosa, e riso solto, natural de Morro Grande, terra da Pedra do Paraibanha, que veio se abancar por esses lados há mais de vinte anos.
Ao entrar na venda, sentei numa cadeira e, enquanto esperava o café, reparei que numa roda de conversa ao lado, o assunto era os vazamentos da Lava-Jato, então passei a prestar atenção na história.
Faziam parte da conversa o médico, o pai da pequena Maria e até o Juiz, mas quem comandava o assunto mesmo era o Velho Lazin, que tinha tanta lábia, quanto idade, e não perdia a chance de contar suas histórias.
Dizia ele, que muito antes de surgir essa história de Lava-Jato, lá em Morro Grande, já havia acontecido algo muito mais sério e importante do que essa tralha toda; e continua contando, que a Dona Elisabete, telefonista da cidade (para quem é da geração Y e não sabe o que é uma telefonista, explico: muito antes de existir o IPHONE as cidades tinham uma coisa chamada Central Telefônica, onde tinha uma pessoa chamada telefonista, então quando a outra pessoa queria falar ao telefone, ela primeiro chamava na central a telefonista e pedia para discar o número tal – normalmente dois dígitos, e não oito como hoje – então quando a outra pessoa atendia, aquela que era a telefonista, saía da ligação para as pessoas conversarem).
Voltando à história do Lazin, Dona Elisabete que era a telefonista, curiada que só, tinha o péssimo hábito de ficar escutando as conversas dos outros, enquanto elas falavam ao telefone. Como isso era sabido por todos, volta e meia um ou outro dava uma carraspana na velha futriqueira.
Ocorre que, havia chegado à cidade um moço da capital (de aparência bonita, mas caráter duvidoso), e esse tal moço resolveu que iria tirar vantagem daquela gente simples, por isso decidiu que iria entrar pra política. Moço da cidade, de estampa fina, e fala empombada, logo se tornou Presidente da Câmara, se ajuntando com a pior espécie de políticos da região, mas sempre pensando no próprio bolso.
À época, o Prefeito da cidade era o Drº Bento Ribeiro, médico, de família tradicional, muito simples e humano, mas preocupado com o bem-estar dos seus munícipes. Desde que assumira a Prefeitura, Morro Grande começou a melhorar – saúde, educação e segurança eram suas metas, e por elas trabalhava dia e noite sem cessar.
O Presidente da Câmara, que não era afeito ao dirigente municipal (por questões óbvias), passou a tramar, com a politicalha que lhe acompanhava uma forma de tirar Bento da Prefeitura. Parando para dar uma golada na branquinha que estava sobre a mesa, Lazin prosseguiu:
Até tocaia para o médico aprontaram. Dizem que quando ele estava voltando de um atendimento na zona rural, alguém descarregou um tambor inteiro de 38 em cima do carro do prefeito, que se feriu, mas só não morreu por que o tiro certeiro parou numa medalhinha de Santo Expedito, que ele carregava consigo, presente de vó.
Trama perdida, o pérfido político não desistindo de sua nefasta intenção, percebera que a melhor forma de acabar com o adversário, era aniquilando com a boa imagem que ele tinha na cidade, tornando-o réles como um rato, mas para isso precisava se servir de alguém que fosse conhecido do povo, mas não tivesse muito escrúpulo para aceitar tal missão.
Volta à cena, então, Dona Elisabete, solteirona e encalhada, fofoqueira confessa, seria a pessoa ideal para espalhar a semente do mal, destruindo assim a reputação do bom médico. Para tanto, o mau caráter investiu com gracejos e agrados para cima da dona, que logo se derreteu entregando muito mais do que a boa vontade em participar do conluio, amasiando-se com o canalha.
O plano era: como todos sabiam que a telefonista tinha o péssimo hábito de escutar as conversas alheias, ela deveria espalhar aos quatro cantos que havia escutado, por mais de uma vez, o Prefeito combinando com os fornecedores da merenda, uma caixinha para engordar seu bolso, e mais ainda, que ouvira também ele dizendo que o atentado sofrido havia sido uma armação, para incriminar seu desafeto político, o Presidente da Câmara.
A história se arrastou igual rastilho de pólvora, e aproveitando-se do furdunço causado, o empestilento político deitou a fazer discurso em praça pública, chamando o Prefeito dos mais torpes nomes, iniciando, assim, um levante junto à população para tirá-lo do Paço Municipal.
Chega então à cidade, enviado pela capital para investigar o ocorrido, o Drº Antônio Pavão, Delegado de Polícia famoso na região, por que tinha a fama de nunca haver deixado de solucionar um caso e, assim, iniciados os processos investigatórios, não tardou para que o fio da meada chegasse aonde começou a tramoia.
Chamada às falas, Dona Elisabete, sem escolha, entregou o amante, que foi acusado e preso por tentativa de homicídio, desvio de dinheiro público, associação criminosa e danos morais, por ter tentado ferir a honra do honesto Prefeito.
Estupefata a audiência, não tardou para que o Juiz intrigado perguntasse o que havia acontecido com a telefonista futriqueira, ao que o ensabichado Lazin, respondeu, com uma risada, que a intriguenta sumira e ninguém nunca mais a viu em Morro Grande, a última notícia que se teve dela é que teria arrumado um outro emprego de telefonista, só que lá pros lados do Planalto Central.
Professor Sérgio Soares