Pandolfo, o professor que contava estórias

Essa é mais uma narrativa verossimilmente imperfeita, e metaforicamente real, que vai falar da pequena cidade de Mais Prosperidade, maior de três pequenas localidades do interior, com seus 25.000 habitantes, (de acordo com o Homem do Censo) da qual dependiam as localidades de Prosperidade e o lugarejo de Desterro, esse inundado há alguns atrás após o rompimento de uma barragem (a tragédia só não foi maior porque o pároco, percebendo o perigo eminente, alertou a comunidade com o sino da Igreja, sacrificando a si mesmo sob as águas).

Dito isto, havia acabado de chegar à cidade, vindo da capital, um novo professor, de nome Pandolfo, para lecionar na sede e na zona rural. Ao assumir seu posto foi lhe dada a incumbência de retomar os trabalhos de uma pequena escola, da zona rural do município, muito precária, e por isso mesmo, muito carente de cuidados.

Missão dada, missão cumprida, assim o fez Pandolfo, e no intervalo de tempo de Hum ano, aquela escola tão humilde ganhou notoriedade nacional, pois seus alunos tinham alcançado o melhor índice de desempenho escolar, dentro de uma avaliação oficial, feita pelo Governo.

De repente, a pequena Mais Prosperidade virou manchete, e toda a imprensa – TV, rádios, Jornais e Internet – se apressaram para conhecer aquele lugar onde era produzida uma Educação tão diferenciada e, principalmente, quem era o professor responsável por aquele feito.

Ao chegarem à pequena escola a grande surpresa – a escola era um prédio muito simples, de telhado de zinco e carteiras velhas. Ninguém esperava encontrar aquela cena, mas então como os alunos de uma escola tão simples, poderiam ter obtido notas tão exemplares no grande exame?

Foi aí que veio chegando, com seu passo lento, mas seguro, o professor Pandolfo, um homem franzino, de calva branca, óculos e barba espessa, de falar sossegado, polido e correto, mas sem afetações arabescas, ou palavrórios empavoados.

Depois das apresentações, um jornalista da capital, capciosamente, se apressou em perguntar ao simpático professor a quê, ou a quem, ele atribuía os resultados obtidos por aqueles alunos – aos investimentos municipais feitos no ensino, à sua capacidade técnica como mestre, ou teria sido apenas uma questão de “sorte”?

Sem pressa, e com a serenidade que lhe era peculiar, Pandolfo não demorou a responder:

– Meu caro jornalista, sinto frustrar todas as suas expectativas, mas a resposta à sua pergunta não será encontrada em nenhuma das opções anteriormente citadas. Na verdade, meu amigo, o mérito aqui é tão somente dos meninos, pois foram eles que, superando todas as adversidades, conseguiram provar para si mesmos que eram capazes.

 Não se dando por satisfeito, o letrista da cidade grande, insistiu:

– Sim Professor, eu entendo que o senhor queira calçar as sandálias da humildade, e dar o mérito todo à sua classe, mas não tenho como deixar de acreditar que sua participação nesse processo foi indispensável, então lhe pergunto, qual a sua linha metodológica com esses alunos – o senhor se serve do construtivismo de Piaget, dos estudos Montessorianos ou de alguma novidade dessas ditas aprendizagens ativas?

– Mais uma vez, sinto em lhe frustrar meu caro. Na verdade nosso trabalho aqui sempre foi baseado na troca, no diálogo, onde procuramos dar voz a cada um deles, deixando que se expressassem, ouvindo e aprendendo com a sabedoria de suas histórias de vida.

– Como você pode perceber tudo aqui é muito simples, sem grandes recursos, por isso para que nosso trabalho desse resultado, tivemos que construir, juntos, a nossa escola, aliás as aulas, boa parte delas, aconteceram aqui, debaixo dessa mangueira onde estamos. Nesse lugar pudemos contar e re-inventar a história de cada um deles, onde uma espiga de milho pode virar o Visconde de Sabugosa, e os caroços de feijão ajudaram a construir um ábaco.

Ainda não se dando por satisfeito, e tentando achar um quê de arrogância e vaidade naquele homem, o investigador alfinetou:

– Muito bem professor, mas imagino que para chegar a esse ponto, o senhor deva ter tido uma inspiração, quem lhe inspirou nessa empreitada Professor Pandolfo?

– Ah, sim. Entendi. Minha inspiração foi cada um dos alunos com os quais tive a honra de conviver, mas existe, também, uma figura muito forte na retina da minha memória, que foi minha professora, Dona Cora, uma senhorinha baixinha, de cabelos grisalhos, mas que me marcou profundamente com sua sabedoria – ela sempre se dizia feliz, e realizada em sua profissão, pois era assim que tinha a oportunidade de transferir tudo que sabia, mas principalmente, era dessa forma que ela também podia aprender com aquilo que ensinava a seus alunos. Espero que tenha lhe respondido agora, meu caro.

Desconcertado, o jornalista se despediu, e o Professor Pandolfo pode voltar sua atenção, novamente, para seus alunos, já que estava na hora de começar mais uma aula.

Professor Sérgio Soares

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