Sobre falas e falácias

peculiaridades sobre a Universidade Pública que você deveria conhecer,
e ninguém te contou.

A primeira coisa que você deve saber é que a UNIVERSIDADE não é um ser corpóreo, com personalidade e finitude, como muitos têm te apresentado. Na verdade, a UNIVERSIDADE, enquanto instituto, é a representação de um universo plural de saberes, por isso defender essa instituição, é defender esse universo de ideias.

Contudo, justamente por não ser alguém, mais sim algo em que se acredita, ela é formada por um sem número de identidades, cada qual com seus princípios, crenças e ideologias, e aí está a parte que ninguém havia te contado ainda:

 A UNIVERSIDADE É LAICA: na verdade não é bem assim, a universidade vai ser agnóstica, ateia, cristã, afro ou muçulmana de acordo com o viés religioso, mais ortodoxo, ou mais progressista, daqueles que a representam em dado momento, no tempo e no espaço.

 A UNIVERSIDADE É APARTIDÁRIA: outra falácia, o que existe são correntes mais à direita, mais à esquerda, de centro ou moderadas, que a cada gestão renovada se impõe. Porém, não se iluda, essas correntes se farão presentes dentro dos discursos de poder da UNIVERSIDADE, na sala-de-aula, inclusive e, via de regra, não aceitarão o discenso.

A UNIVERSIDADE É O BERÇO DO SABER: até o deveria ser, mas de fato não o é, e isso pode ser explicado por um estigma baseado no tripé ENSINO – PESQUISA – EXTENSÃO onde todos deveriam ser bons professores, pesquisadores e extensionistas, só que não. Você vai encontrar dentro desse universo de indivíduos, aqueles que só têm o título, mas nada ensinam, os que pesquisam, mas nada produzem e outros, ainda, que fazem da extensão uma maneira rápida de complementar seu currículo Lattes. Mas não culpem a classe docente por essa vicissitude, a grande vilã dessa situação é a tríade que força um professor, que é muito bom dando aulas, a ser pesquisador, apesar de não gostar de pesquisar, ou trabalhar com a comunidade, algo que não lhe convém. E essa lógica perversa vale também para os outros dois pés da tríade.

A POLÍTICA DE COTAS É O CAMINHO DA EQUIDADE: na verdade, não é bem assim. É um caminho sim, mas nem sempre o mais fácil. E digo o porquê. Quando um aluno, oriundo de escola pública, negro, pardo ou indígena, ingressa em uma universidade pública através do Sistema de Cotas, dependendo da área que escolheu, vai entender o significado da máxima universitária “fácil de entrar, difícil de sair”, isso por que, se durante o processo de seleção ele teve o benefício de concorrer entre seus pares, no correr do curso essa realidade não se repetirá, e aí valerá o conhecimento acumulado.  Mas não culpem a Universidade por isso, nem achem que o problema está nas cotas ou nos cotistas, mas sim em uma política de educação distorcida que investiu, na última década, massivamente no Ensino Superior, deixando à margem a Educação Básica. O resultado está aí para quem quiser ver.

A UNIVERSIDADE É A CASA DA DIVERSIDADE: aqui temos um paradoxo. De alguns anos para cá os coletivos – feministas, LGBTTI’S, Sem-Terra e outros mais – proliferaram em um sem número nos campi, contudo, quem é conservador, deficiente, pobre ou cotista não tem o mesmo espaço, nem tampouco um discurso engajado de valorização e respeito. Então, pergunto: que diversidade é essa, se diverso deveria ser o respeito a tudo aquilo que é diferente do padrão pré-estabelecido por um grupo ou comunidade, em determinado momento?

 SEM DIPLOMA NÃO HÁ SOLUÇÃO: essa, com certeza, é a maior das falácias que se vê reproduzida nos meios acadêmicos, e também nas escolas. Explico. Por conta de uma valorização excessiva do nível superior, superlativo na última década, tanto em termos de recursos públicos investidos, quando na midiatização das carreiras, criou-se a falsa expectativa de que para se alcançar a realização pessoal, e financeira também, havia que se ter um diploma de curso superior e que, ao contrário, ter apenas uma formação médio-técnica seria algo menos digno, ou financeiramente menos valorizado. Esse discurso ainda é prevalente na sociedade, e a prova disso é o aumento substancial, nesse período, de uma infinidade de cursos preparatórios para ingresso nas IFES. Ocorre que não existem vagas para tantos médicos, advogados e engenheiros nos grandes centros urbanos, pois o mercado trabalha com a lógica da oferta e da demanda, com isso temos a triste realidade de vermos muitos causídicos, doutores e engenheiros disputando vaga como professores na rede de ensino, ou trabalhando como motoristas de aplicativo, dentre outras funções não menos dignas, diversas  das que escolheram na sua formação universitária.

Essa é a UNIVERSIDADE que provavelmente não havia sido apresentada a você. Um espaço plural, por isso mesmo, repleto de tensões, fértil em oportunidades, mas que não deve ser considerado como a única (ou melhor) opção em sua vida. Isso por que, enquanto a EDUCAÇÃO for pensada como privilégio de um Segmento de Ensino, em detrimento dos demais – Educação Infantil, Ensino Fundamental, Médio e Técnico – ainda existirão mais falácias, do que boas falas a serem ditas sobre ela. Pense nisso!

Professor Sérgio Soares

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