Página em branco

Mais uma vez aqui estou eu tentando vencer a barreira da página em branco. Até bem pouco tempo atrás ela me parecia intransponível, hoje já a vejo como uma pequena barreira e espero, dentro em pouco, não tê-la mais como obstáculo, mas como espaço de manifestação da minha vontade.

Hoje é um dia diferente dos outros dias, pois não escrevo na agitação de uma repartição pública, mas recolhido no meu canto, o canto que escolhi para celebrar o encontro do meu Eu com um Mim, ao qual fui apresentado a bem pouco tempo, e a cada dia me surpreende com um mar de ideias nas quais eu nunca tinha navegado. É estranha a sensação de estar sozinho e sentir-se acompanhado, sendo que por tantas vezes estive acompanhado e me senti tão solitário. São tantas emoções, tantos impulsos e desejos novos que brotam, que a impressão que tenho é que nasci a alguns meses, talvez seja esse, na verdade, o grande objetivo desse momento, renascer dentro da minha própria vida. Só que esse renascimento não tem nada de exotérico, muito pelo contrário, é o ato mais carnal, mais visceral que eu já produzi, pois representa o rearranjo da minha essência. Tudo que estava perfeitamente organizado, eu estou bagunçando, e tudo que estava, até então encaixotado, estou desencaixotando, e assim descobrindo todo um universo paralelo em minha vida, um universo alegre, quente, embriagante, desconcertante, e nesse desconcerto hoje acho que estou encontrando o compasso da minha vida.

É engraçado como a acomodação e o medo fazem com que a gente se transforme em mortos-vivos, mais engraçado é como esse jeito cataléptico de ser é confundido pelos passantes da nossa vida como equilíbrio e felicidade. Eu nunca fui considerado por ninguém como mal exemplo, mal filho ou irmão, mal aluno, desajustado ou desequilibrado, enfim, como um indivíduo problemático, contudo hoje vejo que sempre fui tratado da mesma maneira que um; o excesso de perfeição, a vida emblemática, o caráter ilibado, tudo de bom, era tão ruim quanto o rol de bestialidades que se fala de um complicado. Na verdade, desajuste em relação a que ou a quem? Ou no meu caso, perfeito para quem, ou por quê? Nos dois casos esconde-se um equívoco fenomenal que destrói as chances de felicidade do perfeito e do desajustado. Quando você permite que seja colocada sobre seus ombros uma canga, um molde, você perde o que tem de mais verdadeiro, a sua identidade – quem eu era? ou melhor, o que eu era? hoje eu começo a enxergar, da pior e mais doída maneira. A vida que eu vivi, até então, não era a minha nem ao menos para mim, como provavelmente, quando você sentencia, condena e executa um problemático você está tirando dele a mesma possibilidade de saber se aquela vida equivocada era escolha ou imposição.

O que importa hoje pra mim é o que vem à minha frente, o que ficou para trás é experiência, é guardado que estou encaixotando e depositando nos armários da minha memória. Quando olho adiante vejo uma avenida de possibilidades se abrindo, eu que até poucos dias vivia num labirinto escuro. Mais o que importa o que já passou? Prefiro esperar e acreditar no que está por vir. Se alguém me perguntar quem eu sou, hoje já sei me definir, hoje tenho uma identidade, incompleta ainda, pois está em construção, aliás, uma obra sem fim já que não existem personas prontas e acabadas, pois a essência delas é a descoberta, e isso é tarefa de cada dia, tarefa de todo dia.

Sérgio Soares

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