Os Cavaleiros da Távola Redonda: uma metáfora dos dilemas da precedência à mesa

o dia de hoje, 30 de Abril, data em que se comemora o dia do Profissional de Eventos, em homenagem a esses profissionais, decidi escrever sobre uma situação que é recorrente sempre que se fala sobre precedência – o assédio ao cerimonial em eventos onde se compõem mesa, em plataforma de honra, pelas diversas “autoridades” presentes; algumas de fato, outras de direito, outras ainda que assim se acham, na busca pelo “assento perfeito”, aquele mais próximo do centro, senão o próprio central. Para problematizar, e tentar explicar o motivo dessa ocorrência, resolvi buscar na história de uma das mais antigas mesas de honra conhecidas, a possível explicação para esse frenesi comportamental.

Távola, do Latim tabola, móvel ou mesa cuja maior representação foi a Távola Redonda do Rei Arthur, descrita pela primeira vez pelo poeta normando Wace, no século XII onde, conforme reza a lenda, o Rei reunia-se em torno de uma mesa (redonda), em que não havia cabeceira, partindo do princípio da igualdade entre os pares, e que era formada pela mais alta ordem de cavaleiros que, segundo algumas traduções, eram possuidores de habilidades sobre-humanas.

Nessa mesma mesa, apesar de não existir a cabeceira, havia um assento, dito “o perigoso”, que seria aquele posto de frente à cadeira destinada ao Rei Arthur, e onde somente deveria assentar-se o mais nobre, forte e hábil cavaleiro de todos os tempos. Segundo o folclore popular, todos que ali inadvertidamente sentaram-se perderam a vida, exceção feita a Sir Galahad, quinquagésimo e último integrante da Lendária Távola Redonda que preenche as magníficas histórias do Grande Arthur e seus nobres cavaleiros, e a quem é atribuído o achado do mítico Santo Graal.

Contextualizando a situação para os nossos dias, as mesas não são, necessariamente, mais redondas, mas duas de suas posições continuam em destaque: o centro de mesa – objeto de desejo e disputa daqueles que a ela ascendem – e o lugar de honra (em nossa tradição ocidental) á direita do centro. Todavia, a prerrogativa de compor nessa mesa ainda é privilégio de poucos, definida pelo aspecto legal, ou por critérios outros previamente definidos, tal como na Távola do Rei.

Vilallta já afirmava que a precedência é a disputa (de) pelo poder, portanto uma característica do ser humano, que sente uma necessidade de autoafirmação constante perante o grupo, o macho alfa da matilha. Esse desejo de dominação, que já nos acompanha como herança ancestral, e repete-se em várias situações cotidianas (inclusive na mesa de honra), é uma explicação possível para o fato de todos desejarem o assento “Real”, mas apenas a um é dada essa prerrogativa, pelo critério do anfitrionato, ou precedência hierárquica.

Destacado o fato de que o centro, tanto arturiano, quanto hodiernamente, é o ponto máximo de poder em uma mesa, partimos para o outro assento, o “perigoso”, que segundo o mito era tão transcendental que somente a um, dentre tantos Cavaleiros, fora dado o direito de ali sentar-se, não por acaso a este Cavaleiro é imputada a honra de ter descoberto o Santo Graal, o mítico cálice usado por Jesus na Santa Ceia.

Tal explicação, por si só, já bastaria para explicar o que se repete em tantas mesas de honra pelo Brasil afora – segundo a prerrogativa de precedência que adotamos, o lugar de honra é devido àquele que honrosamente o merece – portanto, alguém que tenha obtido esse júbilo em uma tarefa tão hercúlea quanto à de Sir Galahad.Impossibilitados que somos de afiançar tamanho feito, nos prendemos à importância, ou relevância, daquela presença à mesa, para justificar seu posicionamento, contudo, somos forçados a lembrar que grande parte das vezes essa definição passa pela vontade do Rei que pode, a qualquer tempo, ascender (ou descender) em importância à mesa qualquer conviva, de acordo com aspectos políticos que somente a ele cabe definir.

Isto posto, tendo visto as duas posições de prestígio à mesa, podemos encaminhar nossa análise para o fim, contrariando, possivelmente, alguns que esperavam ver discutidas aqui a composição de mesa par ou mesa ímpar, direita ou esquerda, por entendermos que para isso já existe bibliografia vasta, e suficiente, para explicar seu funcionamento. O mesmo não ocorre quando tratamos do inusitado, do inesperado, que ocorre quando em uma mesa já completa, sem possibilidade de extensão, há que se lidar com o surgimento de uma, ou mais de uma, autoridade que, a pedido do Rei, ou por prerrogativa legal, tem que se fazer presente, e é nesse momento que a fogueira de vaidades se incandesce, gerando verdadeira celeuma institucional.

A solução do problema vai ser dada de acordo com a maior, ou menor, habilidade do cerimonial para diferenciar a hora em que a Lei perde a precedência para as tratativas políticas, próprias desse ambiente, definidas pela autoridade maior, o que resolve, na maioria das vezes, a questão. Porém, para responder ao frenesi comportamental, proposto no início desse artigo, voltamos mais uma vez o olhar para a Távola Redonda.

Segundo estudiosos o número de cavaleiros pode ter variado entre 12 e 150 nobres homens, demonstrando, portanto, que a definição de seleto grupo, se aplicaria, apenas em parte, para definir os guerreiros de Arthur, o que reforça a impressão de que, de fato,excetuando-se o Rei e seu escolhido, eram todos os demais coadjuvantes, sobre os quais mantinha-se a sensação de prestígio, apenas por figurar à mesa, o que não impedia, no entanto, que tantos cobiçassem o “assento perigoso”, pagando por essa ousadia com a vida.

Atualizando, portanto, o mito temos que em nossas mesas temos duas posições de destaque: o anfitrião e o convidado de honra, entendendo-se os demais como composição de cenário político, utilizado de acordo com as necessidades institucionais, sem que isso cause impedimento para que esses coadjuvantes intentem, a todo momento, por pressão de mando, ou mesmo da voz, buscar tomar de assalto senão a direita do Rei, o lugar mais próximo dela, com objetivos claros de marcar sua força política, ou simplesmente aparecer na foto, em posição de prestígio no roll da fama das colunas ou redes sociais, incorrendo, com isso, no risco real de perderem muito mais do que o assento à mesa, devido a tal ousadia. Para concluir esse artigo, que homenageia todos aqueles que direta, ou indiretamente, vivenciam esses dilemas institucionais durante o exercício de suas funções como profissionais de eventos, deixamos Honoré de Balzac, que resume tudo de que tratamos, em apenas uma “grande” frase:

“Deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.”

Sérgio Soares

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