Há não muito tempo atrás, tive a oportunidade de participar de uma solenidade de recepção aos novos alunos de uma instituição superior de ensino, confessional, aqui de Juiz de Fora. Da cerimônia, o que mais me marcou não foi o espaço, nem tampouco a decoração, visto tratar-se de um momento festivo onde, portanto, poderia esperar-se um ambiente cuidadosamente ornamentado.
De fato, não havia nada disso, era um salão simples, com uma mesa básica, sem rococós ou rapapés, e ainda assim, afirmo, aquela noite me marcou profundamente, pois havia uma singularidade nos discursos que fez toda a diferença – traço que se repetiu desde as falas dos alunos até a dos dirigentes – o sentimento de pertencimento, deixando claro aos novos alunos da instituição, que daquele momento em diante seriam parte de algo maior, motivo de orgulho e honra de todos, e que levariam essa láurea para o resto de suas vidas, na condição de ex-alunos.
Mais do que um elemento de retórica, essa cultura de pertença pauta toda a estrutura pedagógico-acadêmica da instituição, e é sobre isso que quero me deter a partir de agora, para justificar o título deste artigo.
Em seus primórdios, os novos alunos das Universidades eram recebidos pelo Reitor, em uma Aula Magna, que marcava o início do novo ano letivo, todos formalmente trajados, e vestidos com suas capas, que dariam origem, posteriormente às nossas becas.
De lá para cá, o conceito de Aula Magna (ou aula ministrada pelo Magnífico Reitor), se desvirtuou, e hoje tratam-se palestras e aberturas de eventos como tal, incorrendo-se, assim, em grave erro semântico e de titularidade, já que, via de regra, não é o Reitor quem as conduz.
Contudo, pior do que um erro de nomenclatura é a perda do sentido formal do ato, pois o que antes era solene, hoje reduziu-se aos trotes provocados pelos veteranos, em contraposição às instituições que ainda empreendem esforços para, de alguma forma, criar um sentimento de boas vindas aos seus novos alunos, servindo-se, para tal, dos mais diversos modelos de solenidades e ações.
O resultado imediato desse fato é que os estudantes da instituição, por inconformação, desconhecimento ou puro comodismo, em nada contribuem para criar esse sentimento de vinculação, de valorização do espaço em que convivem, sendo, muitas das vezes, os primeiros a criticarem e ajudarem a desconstruir a imagem da casa que os acolhe.
Um outro fato interessante, que corrobora essa situação, é resultado do surgimento das novas tecnologias educacionais, representado nas instituições de ensino superior pelos cursos realizados na modalidade a distância.
Em nossa experiência, enquanto responsável pelo setor de comunicação de um Centro de Educação a Distância, tivemos a oportunidade de perceber o quanto os alunos, e mesmo os professores, encontram-se mais vinculados a uma plataforma virtual de ensino, do que à própria instituição que chancela seus diplomas. Alguns só irão conhecê-la, de fato, no dia de suas Colações de Grau, e o reflexo imediato disso é que, além de não valorizarem a marca que levam em seus diplomas, na maioria das vezes nem voltam para dar prosseguimento à sua formação.
Falando então, sobre Colação de Grau, fechamos aqui nosso círculo vicioso – de início e fim – onde o problema que vimos surgir na chegada dos alunos, se repete na despedida dos, agora, graduandos.
Da mesma forma que a Aula Magna teve seu sentido deturpado, a solenidade de Colação de Grau de uma instituição vem perdendo sua importância e prestígio, onde temos visto relatado nos veículos de imprensa os mais esdrúxulos casos de desrespeito à figura pública do Reitor ou dirigente, e da própria instituição.
Criou-se uma banalização da cerimônia, estimulada pelo mercantilismo nascido do surgimento das “indústrias de formatura”, empresas que cobram verdadeiras fortunas e prometem realizar, a qualquer preço, todos os sonhos holywoodianos dos seus clientes, mesmo que isso transforme um ato solene, em um verdadeiro programa de auditório.
Em resposta a isso, houve que se criar um fato inusitado: as instituições de ensino, por reconhecerem a importância da outorga do grau acadêmico, seu maior ato solene, criaram as cerimônias oficiais de Colação de Grau, via de regra com a presença do Reitor e sua equipe, em contraponto às oficiosas, de cunho festivo, onde o Regente maior não se faz presente.
Esta foi, em nosso entendimento, uma saída politicamente correta, pois contempla os interesses de todos os envolvidos, contudo que ratifica a problemática da banalização, e da falta de vinculação o corpo discente com a sua casa, com a sua história.
Seria impensável, por exemplo, que na formatura de uma tropa houvessem duas solenidades: a formatura oficial, com a presença do comandante, e a oficiosa onde tudo seria lícito. Mesmo nas escolas tradicionais, do Velho ou do Novo Mundo, isso seria algo impensável, pois nessas escolas os alunos não apenas se formam, eles concluem uma fase importante das suas vidas naquela que foi a Escola por eles escolhida, e isso lhes é motivo de muito orgulho que carregam pela vida inteira.
Em nosso caso, um dos reflexos deste descomprometimento estamos vendo todos os dias nos noticiários, pois estamos formando advogados corruptos, dentistas traficantes, médicos negligentes e engenheiros irresponsáveis, para ficar apenas nas principais áreas, isso porque essas pessoas conquistaram seus títulos acadêmicos, mas não valorizam essa conquista nem a escola que os formou, funciona mais ou menos como aquela criança que tendo tudo que deseja, não sabe o valor das coisas, portanto, não valoriza.
Concluindo, portanto, nossa análise, enquanto não houver uma mudança paradigmática em nossas universidades, onde sejam reconhecidas as conquistas e a história da instituição, continuaremos acompanhando esta crescente banalização dos ritos, e da própria imagem institucional, como se fossem descartáveis e ultrapassados, móveis velhos que desgatados pelo tempo, são encaixotados e trocados por outros, novos e mais modernos, como se a história dos pioneiros, e a tradição de uma Universidade, fossem apenas como um papel amarelado pelo tempo, que fica esquecido e jogado no fundo de uma gaveta.
Sérgio Soares