O Nobre e a Plebeia

Uma história de amor em três atos

Dizem por aí que certas coisas só acontecem em novela ou no cinema, em especial quando o assunto é amor. Normalmente vemos aquelas cenas clichês onde o mocinho e a mocinha se casam, e são felizes para sempre, ou onde o vilão sempre morre no final.

Hoje, porém, quero falar de um conto de fadas moderno, quase real, e que conta as aventuras e desventuras de um casal que conheci, cuja história é recheada de fantasia, com direito a mocinho e mocinha, bruxa e tudo mais. Ela começa mais ou menos assim…

ATO I – O encontro

Em uma cidade nem tão, tão distante assim, lá para os lados de Minas Gerais, havia uma jovem moça, de beleza escondida, para poucos revelada, e que, por isso mesmo, causava grande furor entre os moços da cidade – era considerada a jovem mais “difícil” do vilarejo. Juntava-se a isso, que a moça tinha um pai muito bravo, a quem todos temiam, que carregava a alcunha de “João Fura-Olho”, pois rezava a lenda que ele furava os olhos de qualquer um que se aproximasse daquilo que lhe pertencia – incluindo-se nessa lista bens, bichos e até sua filha, a doce e pobre Rosalinda, cujo nome de rosa representava bem sua personalidade – bela e perfumosa como a flor, mas ainda fechada, sem abrir-se para o mundo.

A história de nossa protagonista sempre foi marcada por dificuldades, desde muito cedo conheceu a dor e a perda, pois fora criada pelo pai, depois que a mãe a abandonou ainda pequena, e se não fosse a ajuda de D. Antônia, sua avó, mãe de seu pai, ela talvez não fosse a personagem principal dessa estória.

Passou fome e teve que encarar desde muito cedo o trabalho pesado, o que a levou a conhecer a outra personagem de nossa trama – o jovem Áureo Fortuna, último filho de uma família tradicionalista, que chegou à vila por conta de umas terras compradas pelos seus parentes.  Lá estabeleceram-se e a vida dos Fortuna sempre causou alvoroço na cidade – como por exemplo no dia do casamento do irmão do meio – Epitáfio Fortuna que parou a vila, pois contam que para a cerimônia e a festa vieram tantos convidados, que numa cidade onde só passavam carros de boi, e uma meia dúzia de charangas velhas, formou-se o primeiro e único congestionamento da história do local, com filas de carros beirando um quilômetro.

Mas voltando ao nosso conto, a história de Áureo e Rosalinda começa quando ele, após ter sofrido uma grande desilusão amorosa, entristecido e desiludido, queixava-se com sua madrinha, Dona Margarida, que lhe consolava dizendo que sua alma gêmea ainda estava por vir, que ainda existiam moças de boa índole, e que ela mesma conhecia ali na vila uma moça muito boa, de boa família e, quem sabe, eles ainda não poderiam vir a se conhecer?

Sem dar muito crédito ao vaticínio da boa madrinha, Fortuna seguiu sua vida, enroscando-se hora com uma, hora com outra moça da vila, o que lhe valeu a fama de moço de pouca virtude, que só buscava o proveito próprio com as incautas moças.

Por várias vezes, em suas noitadas nas festas da vila, Áureo e Rosalinda estiveram próximos, olharam-se em tantas, mas nunca se viram.

Nesse meio tempo, seu João “Fura-Olho” veio trabalhar como retireiro nas terras da família Fortuna, e como a jovem Rosalinda tinha que ajudar o pai no sustento, fora junto com ele encarar a lide rude do trabalho com a terra.

Mais uma vez, o caprichoso destino fez seus caminhos cruzarem-se inúmeras vezes, mas por conta de sua fama, a jovem Rosa nem se dava conta da presença de Fortuna, por acreditar tratar-se de mais um aproveitador.

Assim foi, até que um dia, por um acaso da sorte, os dois trocaram as primeiras palavras e o que até então parecia um descalabro, de repente começou a se apresentar como algo agradável. Vale lembrar que Áureo já tinha reparado a formosura de Rosa, mas a tinha olhado apenas como homem, que olha uma bela e jovem moça, apesar de maltratada pela vida, e como ela nunca lhe dera atenção, seu interesse nunca passou do flerte.

Foi então que aconteceu: era uma noite de verão, a lua estava cheia, com um céu cravejado de estrelas; Áureo estava só em casa, sua família tinha viajado, e ele estava no jardim, sentado, pensando na vida, quando vê Rosalinda se aproximar. Ela acabara de terminar uns mandados deixados pela mãe do moço, e assim eles trocaram as primeiras palavras. Tendo apenas a lua como testemunha, naquela mesma noite, começou uma bela e singela história de amor.

ATO II – O Casamento

Depois daquela lua cheia, muitas outras vieram, e o sentimento averso, foi transmutando-se em respeito, depois veio o carinho, depois veio o afeto até se confirmar em um sentimento mais forte que ambos e, sem perceberem, ou mesmo planejarem, quando se deram conta já eram um casal de namorados.

A notícia parou a cidade, pois como diziam – Como podia aquilo? Água e vinho não se misturam! referindo-se à diferença social que existia entre eles. Outros, maldosamente, iam além. Afirmavam que tudo não passava de premeditação, que o rapaz endinheirado apenas queria aproveitar-se de sua pureza e inocência, que iria encher-lhe o bucho, e depois simplesmente sumiria no mundo, deixando uma criança sem pai, e uma jovem de coração partido.

Além de todo falatório nas ruas da vila, em ambas as famílias houveram conflitos, pois se do lado dos Fortuna a boa educação fazia da aceitação prévia do relacionamento uma necessidade (ainda que indigesta) do lado da jovem havia o contraditório: enquanto um Srº Joâo “Fura-Olho”, ainda que desconfiado, engolia a presença do jovem patrão em sua casa, os parentes viam na relação uma forma de tirar vantagem e lucro.

Apesar de todos os revezes, o amor falou mais alto, e a relação foi tornando-se cada vez mais sólida. Fortuna havia encontrado a alegria, a confiança no querer bem, e vivia a fase mais feliz de sua vida. De outro lado, a jovem Rosa encontrara no amado a segurança, o companheirismo e o amor que pensava, ela nunca encontraria na vida sofrida. Com o apoio e o carinho de Áureo, a jovem flor começava a desabrochar – a menina adormecera, para que acordasse a mulher.

Os dias foram se passando, o sentimento foi aumentando, a intimidade entre o casal crescendo até chegar o dia em que Áureo tomou sua decisão mais importante – era hora de tomar o rumo da própria vida, e construir, ao lado da pessoa que ele escolhera, uma nova vida, uma nova família.

E foi aí que o céu, antes ensolarado e azul, tornou-se turvo com a aproximação de pesadas nuvens, prenunciando uma grande tormenta.

A relação dos Fortuna com o casal que antes era cordial (mas burocrática) se tornou incômoda e distante. Para uma família tradicionalista ao extremo, aceitar os caprichos de um filho enamorado com uma rapariga de outra classe social, era permissível, porém, admitir tamanha quebra de cerimônia, ao aceitá-la como membro da família, lhes parecia um despautério.

Ao mesmo tempo, o resto da vila, bem como a própria família de Rosalinda, passou a colocar em crédito os sentimentos da jovem, comentando que tal união não passava de um grande “golpe do baú”.

Com todos esses problemas, essa foi a primeira de muitas outras provações a que foi submetido o jovem casal que, com serenidade, sempre juntos venceram e marcaram, então, o dia do casamento.

Aí começou outra novela. Se de um lado a família do noivo não aceitava a hipótese de um casamento sem pompa e circunstância, com todos os brilhos e brocados próprios dos Fortuna, de outro, a família da jovem enchia-se de simplicidade dizendo que se assim o fosse, não estariam presentes, por se tratar de um ambiente estranho à realidade deles.

Foi nessa hora que entrou em cena um “anjo da guarda” do casal, ajudando-lhes a resolver a pendenga – Padre Joaquim.

Homem plácido, de fala mansa, mas muito articulado, recebendo dos noivos a súplica de ajuda, interviu na disputa, contemporizando as partes, e acertando o casamento para a Igreja Matriz da Vila. O único problema é que, para a data acertada, a Igreja que estava em reforma, ainda não estaria totalmente pronta, tendo condições de receber a celebração, mas sem o brilho e a pompa esperados pela família do noivo.

Mais uma vez se fez a guerra, e novamente o bom padre (e amigo) interviu asseverando aos belicosos aparentados que, mais importante do que as flores e a festa, é o sentimento que levaria o jovem casal a comprometer-se perante a sociedade, e perante Deus.

Porém, seus problemas não acabaram por aí. Seu João “Fura-Olho”, que sempre tratara Rosalinda com frieza, e pouco carinho, percebendo que se aproximava o dia em que ficaria só, já que não havia semeado nada de bom, e não tinha amigos nem tampouco alguém que o quisesse bem, entrou numa tristeza profunda, caindo de cama. Rosalinda quase desfaleceu, pois sentia-se culpada, e assim, por pouco, não desistiu de seu amor, para cuidar do velho pai.

Mais uma vez o amor falou mais alto e Áureo, compreensivo como sempre, tomou sua mão e reafirmou seu comprometimento, buscando auxílio médico para o idoso, colocando-se sempre disponível, mesmo nos momentos mais incômodos, quando o velho homem, teimando em cismar, causava grande tumulto na casa simples da jovem Rosa.

Graças ao tratamento médico, e cuidado do jovem casal, João “Fura-Olho” ficou de pé e aceitou entrar na Igreja junto com sua filha, no dia mais feliz da jovem moça.

Como num passe de mágica, no dia marcado para o matrimônio, a Igreja se transformou: chegaram altares novos, bancos novos e até a pintura foi terminada. Apesar da simplicidade dos ornamentos, até hoje se comenta que nunca houve um casamento tão belo naquela paróquia, pois a beleza vinha não das flores, nem da música, nem tampouco das vestes dos convidados, mas do brilho que emanava do olhar dos noivos, que transbordava felicidade, própria daqueles que se amam profunda, e verdadeiramente.

ATO III – A família

Passadas as bodas, o jovem casal assumiu a nova vida no lar que construíram. Cada objeto tinha a marca de um e de outro, e assim a casa exalava a personalidade dos dois. Desde os primeiros dias, Áureo e Rosa firmaram um pacto de amor e fidelidade – que aquele seria um lar abençoado e que nada, nem ninguém, seria capaz de quebrar a serenidade e a paz que ali construiriam.

Realmente, mesmo nos momentos difíceis quando, após as bodas, seu João “Fura-Olho” piorara, e teve que ser levado para a casa do jovem casal, ficando lá por um bom tempo a contragosto, bem como quando a jovem se acidentou e o marido teve que assumir as tarefas da casa, além de cuidar da esposa (já que nem de um lado nem de outro das famílias encontravam apoio), a vida do casal sempre teve muitas histórias de felicidade, temperadas (como em toda relação) pela pimenta do dia-a-dia que, ao mesmo tempo em que esquenta – e algumas vezes dói com seu ardor – reafirma o amor que, quando verdadeiro, supera as provações e sai delas cada vez mais fortalecido.

Com o passar do tempo, as nuvens de tormenta que cobriam o céu do casal foram se dissipando, e nem mesmo a relação ainda superficial mantida com a família Fortuna, bem como os problemas agravados do Srº João “Fura-Olho”, agora cronificados pelo avanço da doença, foram capazes de tirar a paz e a serenidade dos dois, e assim a vida foi seguindo seu curso, até que um dia, a Fada do Destino lhes visitou deixando uma pequena, e bela, surpresa.

A casa acabara de receber uma nova moradora. Para completar a felicidade de Áureo e Rosa a cegonha deixara em sua porta a pequena Maria, uma princesinha formosa e branquinha como porcelana, tal como a mãe, que veio preencher os espaços que faltavam na vida do casal.

Maria trouxe vida nova e muita agitação àquela casa tão acostumada ao silêncio. Agora as noites eram interrompidas pelo choro da nenê e, mesmo nessas horas, Áureo e Rosa nunca deixaram de compartilhar, um estando sempre ao lado do outro.

Ao mesmo tempo, a chegada da pequena serviu para atar os nós desfeitos, pois, seu João “Fura-Olho”, que tinha tanta dificuldade em demonstrar afeto, encantou-se com a pequena, provocando, inclusive, uma melhora sensível no seu estado de saúde. Da mesma forma, na casa dos Fortuna, a chegada do bebê serviu para arrefecer os ânimos, e amolecer os corações; assim a convivência que antes era uma questão de mera obrigação, passou a ter um ar de maior cordialidade.

Maria foi crescendo, e a felicidade do casal também. Eu poderia terminar esta história dizendo que eles foram felizes para sempre, mas sempre é muito tempo, e muitas outras adversidades ainda estão por vir na vida de Áureo e Rosa. Mas sabe qual é a grande moral dessa história?  A vida é um eterno e constante recomeçar, e só quem sabe reconhecer isso, consegue aproveitar os muitos momentos de felicidade que ela nos oferece.

Quanto ao casal? Acho que eles em breve receberão uma nova visita da cegonha, trazendo uma irmãzinha (ou irmãozinho quem sabe) para fazer companhia à pequena e amada Maria.

Fim….?????

JRO

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