“Mande bem, mande mal, mande um só”

A disputa de (pelo) poder nos bastidores do Cerimonial

Este dito, trazido da sabedoria popular, deveria ser a regra áurea do trabalho desenvolvido pelo Cerimonial em qualquer das instâncias em que ele se insira. Contudo, a experiência, e a convivência nas diferentes instâncias públicas, nos faz afirmar que o grande obstáculo para o trabalho do cerimonialista é, justamente, seus pares.

Não quero aqui fazer apologia ao erro, nem tampouco justificar os equívocos e gafes que são jocosamente noticiados toda vez que uma autoridade constituída é pega em situação desconfortável, graças aos desajustes da sua assessoria protocolar, na verdade, o que busco com esse artigo é discutir a ética profissional dentro desta que é, para muitos, dentre os quais me incluo, uma carreira vocacionada, e não apenas um comprometimento laboral.

Segundo Blanco Villalta, A precedência é o ponto crucial e a base do cerimonial. Éreconhecer a primazia de uma hierarquia sobre a outra, e tem sido, desde ostempos mais antigos, e em todas as partes, motivo de normas escritas, cuja faltade acatamento provoca desgraças.

Isto posto, somos obrigados a nos questionar: se, enquanto cerimonialistas, temos a plena convicção dos meandres e das interposições políticas que  se criam a partir do problema da formação da precedência na composição formal de nossos eventos, porquê então não conseguimos acatar esta mesma lógica quando falamos dos bastidores, onde, muitas vezes, atuamos conjuntamente com mais de um cerimonial, seja em instância igual , superior ou inferior à nossa?

Dentro de minha vivência como cerimonial público presenciei, e senti na pele, por inúmeras vezes, o exato desrespeito à figura do outro, reconhecido como par em nosso meio profissional e o motivo, que muitas vezes era alegado para tal des-compromisso é o tal “do ajuste político”, como se para “organizar” as necessidades de uma mesa fosse necessário recorrer-se ao subterfúgio e ao desrespeito com o colega de lide.

Neste momento em que acompanhamos através da mídia as inúmeras solenidades de posse – da Presidência da República aos Governadores – vemos reacender nos bastidores os burburinhos e comentários acerca dessa ou daquela autoridade que cometeu tal gafe, do erro que o protocolo cometeu em determinada situação, como se nesses casos o mais importante fosse o “equívoco”, e não o ato solene em si mesmo.

Do Grego, ética (ethos) relaciona-se com o modo de ser e de viver do humano, regulando suas relações em sociedade, sem a qual viveríamos em total anarquia funcional. Vejamos bem, para tudo em nossa vida há que se ter ética, até mesmo na guerra existem preceitos que regulam as batalhas, e quando essas regras são quebradas encontramos os exemplos de bárbaries para os  quais os tribunais de guerra são chamados a intervir.

Então, se até para matar existe uma diretriz esperada de comportamento, porque é que durante o exercício de nossas atividades profissionais nós, cerimonialistas, insistimos em persistir no misancene, na desqualificação do outro, para valorizar nossa função, nosso cargo? E que não venhamos usar como desculpa para tal falácia as variantes políticas de cada evento, pois, independente do ajuste político necessário à composição hierárquica, podemos, perfeitamente, nos ajustar “éticamente” de tal forma que as demandas ocorram sem prejuízo moral de ninguém. E que ninguém ache que tais posturas equivocadas, e replicadas Brasil afora, se encerram com o término da cerimônia, pois quem não consegue reconhecer e respeitar seu par em uma situação formal, também não o fará quando este estiver ausente.

E quem perde com isso? O cerimonial, seja ele público ou não, pois tais comportamentos enfraquecem e desprestigiam a carreira, dando a entender para aqueles que se servem de nosso trabalho que não somos organizados e, nem tampouco, nos reconhecemos enquanto grupo, com identidade e personalidade. Por isso, quando precisamos nos articular, como agora por exemplo, buscando valorização profissional não encontramos respeitabilidade e reconhecimento enquanto categoria.

Portanto, “Mande bem, mande mal, mande um só” é muito mais do que designar a apenas um o poder de mando, é saber reconhecer e respeitar a capacidade do outro, bem como ter a ciência de que, mesmo para criticar, há que se ter ética e comprometimento com a classe, pois, todos somos passíveis de erro, visto que errar é algo plenamente humano. Pior sim, do que cometer uma gafe, é persistir nessa canibalização que se criou dentro Cerimonial, e que tem como origem dois dos piores pecados humanos, o Orgulho e a Vaidade.

Sérgio Soares

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