A Praça de Nossa Senhora do Rosário no “31 de Março”

Dia desses estava eu sentado na porta de casa quando meu vizinho, o Sô Lazin, uma figura folclórica aqui em Morro Grande, famoso pela prosa solta e pelas mentiras mais soltas ainda, veio me contar a versão nativa do episódio histórico de 31 de março de 1964, quando o “General Popeye” dirigiu-se com suas tropas para o Rio de Janeiro, passando pela região.

Segundo o velho Lazin, naquela manhã de março, a cidade acordou mais cedo com uma movimentação diferente na Praça de Nossa Senhora do Rosário – barracas de campanha, soldados, obuses e caminhões invadiram o prazível espaço transformando-o num cenário de guerra. Logo, logo as ruas se encheram de curiosos que começaram a construir as mais diferentes conclusões sobre o ocorrido, mas, de acordo com o velho, até hoje se acredita que aquela era uma manobra dos alemães que vieram tentar estabelecer na alvissareira Morro Grande um novo posto do Reich Alemão, e que o próprio “General Popeye” era descendente direto do Herr Commandant.  Esse episódio não durou mais do que um dia, mas foi o bastante para que a cidade sofresse uma revolução, maior do que a de 64.

O “General Popeye”, ao desembarcar de seu veículo, logo se dirigiu à Casa Paroquial onde imediatamente destituiu a autoridade maior da cidade – o clero – de sua morada e estabeleceu naquele domicílio o centro de comando das operações abancando-se da cama do pobre pároco.

Contam que ele era uma figura esquisita, meio caricata, com um cachimbo sempre colado à boca, e um ar de constante prisão de ventre, ou nas palavras do velho Lazin, cara de peido. Ao falar, suas palavras sempre soavam como em um discurso de tribuna, alteando os finais de frase, o que realçava a impressão de que era uma pessoa com constantes problemas intestinais que, para segurar os ímpetos viscerais, espremia a voz e depois à soltava em alto som. A própria tropa comentava à boca pequena que durante as noites de campanha era comum vê-lo num vai-e-vem às casinhas.

Nunca Morro Grande ficou tão movimentada; as crianças, como pequenos silvícolas que recebem a visita do homem branco, encantaram-se com o poderio bélico daquele grupo. E não era pra menos, estava ali colocado o contingente de uma região militar inteira, que estava preparada para defender o solo pátrio da ameaça comunista, até o último homem.

Além dos pimpolhos, as jovens moças da cidade adoraram a movimentação dos rostos camuflados, elas que até então estavam acostumadas com o cheiro de bosta de boi dos peões da cidade, encantaram-se com o odor do diesel dos veículos e do chumbo da munição. A cena lembrava um pouco os tempos da Roma antiga, quando os soldados romanos conquistavam a terra, mas também o coração das aldeãs com o seu charme aquilino, barba feita, banho tomado e cuecas (coisa de romano), mas que era uma invenção altamente sensual para aquelas jovens bárbaras habituadas ao cheiro de estábulo de seus machos. Por isso, na bela Morro Grande aconteceu um fato que ficou famoso na memória do povoado, e até hoje é falado pelas tricotadeiras de plantão.

Lá existia uma linda moça, morena cabocla, de cabelos longos e ondeados como as corredeiras do Paraibanha, pele da cor da jabuticaba e olhos negros como a noite. Esse belo espécime de fêmea era famosa, não só pela beleza, mas também pelo pudor com que fora criada pelos pais. Porém, por trás daqueles belos olhos, escondia-se um braseiro adormecido aguardando ser ateado. Essa jovem chamava-se Maria e era filha dos donos da pensão, que fora “confiscada” pelo “General Popeye” que os incumbira de fornecer água e alimentação para a tropa.

No exercício do “serviço militar” Maria teve que ajudar os pais e, nesse contato, conheceu um jovem soldado famoso entre a tropa pela boa lábia com as donzelas. Não demorou nada para que a boca de Maria estivesse colada à boca do Dom Juan belicoso. O curioso do acontecido não foi o beijo, mas na verdade a série de beijos que aconteceram em seguida – Maria, que era até então contida e recatada, viu seu fogo se acender e tomar conta de seu corpo juvenil; segundo o velho Lazin a moça ficou famosa na cidade por ter beijado, numa tarde, um pelotão inteiro, com cinquenta homens, tendo ganhado a alcunha de Maria Batalhão. Ainda, segundo meu vizinho, esse recorde não foi quebrado até os dias de hoje e conclui sabiamente: água morro abaixo, fogo morro acima e mulher quando quer, ninguém segura.

Dentro do plano de conquista do “General da Banda” era necessária a tomada de todos os pontos estratégicos que circundavam a cidade, garantindo, assim, total domínio sobre as entradas e saídas e consequente controle sobre o acesso à cidade do Rio de Janeiro, objetivo principal da empreitada. A Rua do Rosário, a Rua do Aristides, a Peneira, a Rua do Rocio e todos os outros pontos estratégicos foram devidamente entrincheirados, mas restava um problema – Morro Grande era uma cidade encaixada dentro de um vale, cercada de um lado pela altivez da Pedra do Paraibanha vislumbrando o horizonte, e de outro por uma série de matas e serras menores, sendo uma das mais traiçoeiras a Grota dos Macacos. Como era uma região inóspita, e o tempo era pouco para fazer um reconhecimento, Herr Commandant ordenou que fosse convocado à prestar serviço pátrio o melhor mateiro da região.

Sô Lazin, conta esse ocorrido com um sorriso largo nos lábios. Na cidade existia um rapaz famoso pela coragem e bravura, daqueles que pegavam o touro pelo chifre, mas também por conhecer cada trilha, cada mato, cada canto da região. O rapaz, de pele avermelhada, tinha, por isso, o apelido de índio e quando foi apresentado ao General demonstrou-se soberanamente insubordinado e só aceitou a empreitada quando foi convencido pela ponta da baioneta.

Assim sendo, diante de argumentos tão fortes, saiu com dois grupos de batedores e um sorriso “resignado” no rosto. Lazin conta que o índio era moço de caráter exemplar, mas que não aceitava cabresto fosse de padre, polícia ou prefeito – o único cabresto que havia permitido receber fora da sua preta, que havia domado aquele cavalo chucro.

Chegando ao pé da Pedra do Paraibanha indicou a trilha aos batedores, e logo já se viam no alto do monumento as bocas dos canhões mirando ao longe. Seguiu caminho e adentrou a Grota dos Macacos com o grupo de combatentes. À beira da trilha indicou para os jovens soldados o “melhor caminho de volta”, deu de costas e saiu rindo matreiro. Conta o velho Lazin que até hoje, quando se entra na Grota, é possível ouvir os tiros de fuzil dos soldados perdidos que nunca mais foram vistos.

Na manhã seguinte, a Praça de Nossa Senhora do Rosário já havia reconquistado sua independência, as barracas, as tropas, os soldados o General e toda sua Banda já haviam se retirado. O pároco já voltara a ocupar a posição de Senhor do seu feudo, e a vida simples daquela gente havia tomado seu curso. Na memória ficaram as estórias que compõem uma parte da história do Brasil. Verdadeiramente verossímil ou verossimilmente verdadeira ninguém sabe, o que é certo é que causos como esse que o velho Lazin me contou é que constroem a cultura de um povo.

Quando perguntam ao velho se ele não exagerou, um pouco além da conta, ele se enfurece dizendo que tudo é verdade, das verdadeira, mas talvez meu velho amigo pudesse apenas repetir uma frase célebre de um outro contador de causos, famoso na literatura brasileira, de nome Chicó, que quando perguntado sobre a veracidade de suas histórias, sabiamente respondia: “—— Num sei, só sei que foi assim”!   

JRO

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