Antes que alguém pense que esse é um texto que falará sobre maus tratos aos pobres bichanos, acalmem-se; vou me fazer valer da licença poética para que neste texto possa usar os pobres miaus de maneira metafórica, até porque tenho grande estima pelos 4 patinhas.
“Certo dia, em uma cidadezinha nem tão, tão distante assim, ao passar pela estrada que corta o vilarejo, um carro jogou à beira do caminho um saco cheio de gatinhos, dos mais diversos tipos – grandes, pequenos, malhados, pretinhos e branquinhos, e o mais importante, das mais variadas raças – do mais vira-latinha até o mais pomposo Persa com seu focinho achatado e cara de sono.
A cidade ficou em polvorosa, pois nunca se vira naquele lugar tanto bichano junto andando pelas ruas, praças, telhados e janelas, todos queriam pegar um pra si (alguns pegavam logo 3), só que aqueles fofinhos de 4 patas, rapidamente se tornaram um problema.
Por questões genéticas (e de índole dos bichos de duas patas) os mais bonitos, charmosos e de raça foram os primeiros a sumir das ruas, uns por conta da fragilidade típica da qualidade sanguínea, outros porque foram surrupiados e levados para outras bandas mesmo. Fato é que, em pouco tempo, só se viam gatinhos vira-latas pela cidade, dos pequenos aos grandes, revirando lixo, roubando quintais e cozinhas, matando criações.
O fim dessa história ninguém sabe, pois, se por uma questão ética, ou por outros motivos que só o tempo vai dizer esses gatos não foram exterminados, e acabaram tornando-se os donos da cidade, transformando os pobres e incautos moradores daquela cercania em cordatos empregados a serviço de um gatil de vira-latas.”
Essa história pode ter acontecido (ou ainda estar acontecendo) em qualquer cidade desse mundão de Deus, na minha, ou até mesmo na sua, mas o mais importante é além de saber onde, entender o porquê dela ainda acontecer. Para compreender-se o sentido dessa crítica, necessário se faz, primeiro, descobrir primeiro quem (ou o quê??) são os gatos de raça e os vira-latas retratados na história, e para explicar isso apresento o real sentido, e o significado da palavra POLÍTICA.
Amada por alguns, odiada pela maioria, essa palavra veio sofrendo, com o correr do tempo um processo de desconstrução que fez com essa instituição se perdesse pelo caminho, restando, desde então, arremedos de POLÍTICA e de POLÍTICOS, que só fizeram denegrir e enxovalhar seu real sentido, que surgiu quando os homens das cavernas decidiram compartilhar seu espaço com outros da mesma espécie. Nascia aí a POLÍTICA.
Sua origem vem do grego, da palavra politiká que significa “aquilo que está relacionado ao espaço público”, ou de forma mais atualizada tem a ver com a “arte ou ciência de governar”, portanto, seu sentido vai muito além daquele que é lembrado na época das eleições, momento como esse em que partimos para mais um pleito democrático, onde o cidadão irá escolher aquele que irá “governar com arte” e fazer a POLÍTICA que se deseja em favor das cidades e do povo desse país.
Como visto, ela está presente em quase todos os momentos de nossa vida, pois quando você decide relacionar-se, ou conviver com outra pessoa (sejam casais, vizinhos, amigos e conhecidos), há a necessidade de ser político e colocar em prática a “arte” de respeitar às diferenças, com ética e responsabilidade, buscando sempre um bom termo para ambas as partes, visto que o objetivo da POLÍTICA é, e sempre será, a coletividade. Sem isso, casais se separariam, vizinhos brigariam, amigos terminariam a amizade e conhecidos virariam rivais.
Portanto, que a política faz parte de nossas vidas já não há mais dúvidas, isso é fato, não sendo mais possível afirmar-se (a)político; o que não se deve permitir é que faça parte também a POLITICAGEM, um sub-produto da primeira, inventado por algum gênio do mal, sabe-se lá com que finalidade. Mas como diferenciar uma da outra? Para poder explicar essa diferença, volto ao início dessa crônica para falar novamente sobre o saco de gatos.
Fazer POLÍTICA é coisa para poucos, que têm na percepção do interesse coletivo, da vontade da maioria, seus princípios morais e éticos, e a partir dos quais constroem sua trajetória de vida pública e pessoal. Esses são os gatinhos de raça, nobres e emplumados, que na história narrada, foram os primeiros a sumir.
Sobrou a POLITICAGEM, essa epidemia que invadiu casas, cidades e o Brasil inteiro e fez com que esses vira-latas infestassem o país, auto-entitulando-se grandes e notórios políticos, mas que não passam de abutres e interesseiros que não fazem outra coisa que não seja vilipendiar os cofres públicos, difamar, acuar, e colocar cabrestos sobre os ombros do povo que os escolhera, para manter o seu status quo, seu feudo, seu rebanho eleitoral, seus interesses (esses, no fundo, não passam de marionetes nas patas de gatos maiores que eles próprios).
Alguém pode estar se perguntando o motivo pelo qual resolvi falar sobre essa gataiada nesse texto, e assim respondo – o texto é a minha zona de conforto, é onde eu melhor me expresso, por isso, na condição de professor – não por formação mas por vocação – acho que é dever daquele que ensina, explicar e orientar para que assim quem lhe escuta possa entender o real sentido das palavras e das coisas, em especial nesse momento em que tanto se fala sobre POLÍTICA pelo Brasil afora, seja por conta das eleições, seja por conta dos escândalos nacionais que enchem as páginas e os sites de notícia no Brasil e no mundo.
Mas confesso, sim, tenho uma outra motivação, e talvez seja ela a maior, que me faz estar aqui escrevendo essas palavras – sou um IDEALISTA – sofro de uma inquietação perene que me faz ter que acreditar que ao final o bem vencerá, que o mal será sobrepujado e que as maldades e vicissitudes que assombram o povo desse Brasil, um dia terão fim.
Por conta disso, resolvi combater o BOM COMBATE, seja na sala-de-aula, no ambiente profissional ou mesmo na vida íntima, com a certeza de que posso cair lutando, e nada do que desejei se realizará, mas ainda assim, terei a certeza de que ao dormir o sono dos justos, repousarei com a consciência em paz, certo de que fiz tudo que estava ao meu alcance para tornar a vida de alguém nesse mundo um pouco melhor.
Encerrando mais essa página que escrevo em minha vida, deixo para você meu aluno, colega, amigo, irmão, minha amada e meus desafetos, uma frase que resume tudo o que escrevi, que resume aquilo em que acredito e é a forma como tenho tentado levar essa vida de meu Deus, escrita por uma sábia que, como eu, acreditou um dia que somos responsáveis por tornar a vida de quem está ao nosso lado, um pouco melhor – feliz aquele que transfere o que sabe, e aprende o que ensina – Cora Coralina.
Professor Sérgio Soares