Assim que a alma de Colombo é purificada, ela se desprende do corpo, abandona as dores físicas e adentra o plano espiritual Ukhu Pacha. Ele vê à sua frente um ser de pura luz que clareia tudo ao seu redor. Colombo, maravilhado, pergunta:
— É você?
— Sim, sou eu! Mas não tente me rotular. Estamos em Ukhu Pacha. Aqui somos entidades, não nos chamamos por nomes. Sua alma neste plano é um espírito de luz, por isso precisei extrair-lhe um sentimento puro durante sua morte, pois só assim você poderia chegar aqui como um espírito iluminado.
Colombo olha para si pela primeira vez após sair de seu corpo e percebe que também brilha. Não possui forma, membros ou rosto, mas, em seu estado de pureza, consegue olhar para dentro de si e enxergar-se com plenitude. Maravilhado, sente-se pleno, livre de qualquer dor e sofrimento, e nada o aflige. Diante da vastidão que o cerca, ele diz:
— Você mentiu para mim. Estamos no céu!
— De certa forma, sim — responde a entidade com serenidade.
— O que você sente agora é a paz que esperava encontrar no paraíso, mas Ukhu Pacha é muito diferente do seu conceito de céu. É um domínio de silêncio e sombras; pode ser engrandecedor ou assustador, pois tudo depende do que você carrega dentro de si. Aqui residem os segredos da vida e da morte, onde os antepassados guardam as sementes do que virá, guiando-as para que o espírito possa, um dia, renascer em Kay Pacha.
— E se eu não desejar partir?
— indaga Colombo.
— Nunca senti tamanha felicidade. Quero permanecer aqui!
— Infelizmente não poderá ficar, pois aqui sua jornada é de aprendizado. Você encontrará outros espíritos iluminados que lhe transmitirão sabedoria. Contudo, em certas ocasiões, sua luz se apagará, os guias se afastarão e você conhecerá a verdadeira escuridão de Ukhu Pacha. Esse isolamento lhe trará momentos de profunda reflexão e outros de desespero, mas ambos são partes vitais do processo de germinação. Só ao fim desse ciclo, sua alma eclodirá como uma semente e retornará a Kay Pacha, conforme lhe foi revelado no momento de sua partida.
A fala é interrompida por um breve silêncio, permitindo que Colombo 9 as revelações. Em seguida, a entidade prossegue:
— Mas, antes que esse momento chegue, há muito o que compreender. Hoje você entenderá como os dois planos se entrelaçam: aquele em que você caminhou para a purificação, e o outro, onde invadiu e devastou terras com seu povo, com imensa desumanidade. Você verá como as consequências desses atos terminaram por aprisionar a todos na Bolha da Perfeição.
O espírito de Colombo se distrai por um instante com a imensidão escura de Ukhu Pacha. Porém, ao voltar seu olhar para a Terra, observa uma imagem que lhe chama a atenção: um tambor danificado e, ao lado do instrumento, um jovem agachado. Em seguida, avista o rapaz sendo cercado e amarrado por um grupo de seis homens. Passado algum tempo, Colombo nota que o grupo está reunido ao redor de uma fogueira: os seis captores, o prisioneiro e cerca de cem pessoas, entre homens, mulheres e crianças com fisionomias e roupas muito variadas.
A cena prossegue.
A fogueira é impressionante, com vinte metros de altura. Ela queima lentamente do topo para a base, como uma grande vela, graças ao conhecimento que aquele povo possui quanto ao uso de resinas entre as madeiras. Parte das pessoas está sentada para acompanhar a conversa que irá se iniciar; outras cuidam das crianças ou descansam, mas todos aguardam ansiosos pelo início da celebração da Renascença.
Fora do alcance da fogueira, a noite é densamente escura e silenciosa. A única fonte de luz, além da fogueira, são as estrelas, devido à ausência da lua. Sem a lua, as estrelas e o rastro da Via Láctea brilham com uma intensidade rara. No entanto, nem toda aquela beleza preenche a falta que a lua representa; sua ausência é um peso no peito de todos. Até o capturado sente essa melancolia, embora nunca tenha visto a lua de verdade. Ele passou a vida dentro da Bolha da Perfeição, conhecendo apenas projeções artificiais do céu e do sol.
Assustado, o jovem faz várias perguntas: — Quem são vocês? Por que me capturaram? Que objeto era aquele no chão? E por que este lugar é tão escuro?
O prisioneiro se chama Albus, um jovem magro de pele muito branca, cabelos loiros, olhos negros e olhar perdido. Morador da Bolha da Perfeição, ele é um “Escolhido”. Aos dezessete anos, tudo o que existe do lado de fora é novidade para ele.
— Eu sou Yana Kay! — responde um homem de meia-idade, de traços fortes, pele bronzeada e voz firme. — Nós somos os Doze Povos que resistiram fora da Bolha. Capturamos você porque estava muito perto do Tambor, que foi danificado por uma de suas máquinas. Não sabíamos o que você pretendia… aquele objeto carrega encantamentos, não é qualquer um que pode tocá-lo.
Yana Kay fala com serenidade, mantendo a atenção voltada para a plateia ao redor do fogo. A seguir, encara o jovem nos olhos:
— E você, quem é? Por que saiu da Bolha?
Muito nervoso, o rapaz responde:
— Sou Albus! Estou fora da Bolha porque os robôs pararam e nada mais funciona lá dentro. Todos vão morrer, pois ninguém sabe viver sem as máquinas. Mas eu já estava fugindo antes mesmo disso acontecer.
— Foi por isso que os robôs desapareceram? Por que se desligaram? — pergunta Yana Kay.
— Disseram que precisavam se “canibalizar” para manter a Bolha de pé, pois os minérios para fabricar novos robôs acabaram — explica Albus.
Ao ouvirem sobre a desativação das máquinas, as pessoas ao redor da fogueira se entreolham e tem início um burburinho.
— Ainda bem que as máquinas se desativaram e pararam de trazer o lixo de vocês e de revirar e sugar o que restou da terra — comenta o líder. ~Mas infelizmente, antes de sumirem, elas levaram o Tambor que você encontrou. Nós o procurávamos há muito tempo.
A calma de Yana Kay ajuda Albus a se tranquilizar. Em seguida, o jovem pergunta, gaguejando:
— E para que vocês querem… esse… t-t-tambor?
— Este tambor une três reinos: o animal, o mineral e o vegetal. Essa união, carregada de encantamentos, é a nossa última conexão com a Mãe Terra. É ele que nos permite falar com os “Encantados”, os guias que nos transmitem o conhecimento dos antepassados. É o que tem garantido nossa sobrevivência.
O líder abre um largo sorriso e diz
— Esta fogueira foi planejada assim que os robôs sumiram. Nossos Pajés nos orientaram a prepará-la para celebrar o Dia da Renascença. Mas só poderíamos acendê-la quando recuperássemos o Tambor, pois precisamos dele para a cerimônia.
Apontando para dois jovens, ele continua:
— Jaguaretê e Ubirajara vão consertá-lo. Ficará pronto antes que o fogo se apague.
— Então o tambor é um tipo de robô comunicador? — Albus pergunta, esperançoso. — Podemos usá-lo para restaurar a Bolha e salvar minha mãe?
A feição no rosto de Yana Kay muda e a serenidade dá lugar a uma expressão pesada. Seu olhar se perde na imensidão da noite. Ele parece carregar o peso de séculos de tristeza enquanto encara o vazio.
— Não, meu jovem. Não temos robôs e não queremos restaurar a Bolha. Suas máquinas foram feitas para nos apagar. Elas atacam nossa cultura e destroem tudo o que encontram. Foi por isso que quebraram o Tambor.
O silêncio toma conta ao redor da fogueira. Albus olha em volta e sente a tristeza e o medo que aquelas pessoas nutrem pelo mundo de onde ele veio. Ele também se entristece ao perceber que não conseguirá resgatar sua mãe.
— Mas se não serve para reconstruir a Bolha, para que serve então?
— Para reflorestar o planeta. Hoje quase não existem animais; comemos raízes, e pouca coisa brota nesta terra maltratada pelas máquinas. O ar é denso, os oceanos estão poluídos e, sem o movimento das marés, o mar virou um lago salgado e estagnado. Água doce é uma raridade. Precisamos encontrar o depósito das sementes para que a vida renasça.
— Na Bolha já temos tudo isso: água limpa, ar puro… — comenta Albus.
— Com certeza! Mas para limpar o ar de dentro, vocês sujam o de fora. Para ter água limpa, poluem a nossa. Para criar suas máquinas, devoram os recursos do planeta. Infelizmente, Albus, não podemos voltar para a Bolha. Nossa jornada agora é em busca das sementes.
— E onde fica esse depósito? E o que são sementes, afinal?
— Não sabemos onde ele está. Contamos com a orientação dos Encantados para nos guiar. Quanto às sementes… elas são a própria fonte da vida. São pequenas pelotas que, na terra fértil e com água, geram raízes e plantas. Elas atraem vida, dão frutos, regulam o clima e chamam as chuvas. As plantas são uma forma de vida convergente elas atraem as outras formas de vida, trarão o mundo de volta.
Os olhos de Yana Kay brilham ao falar, como se descrevesse um ser amado.
— Aqui fora, quase não há mais verde. Somente com as sementes poderemos reverter isso. Mas, sem o Tambor para nos conectar aos Encantados, mesmo que as encontremos, não saberemos como fazer o planeta florescer novamente.
— Por falar em água, minha boca está seca. Não bebo nada há muito tempo.
— Tragam água e algumas raízes para Albus — ordena o líder.
Com o pedido, o jovem Birui dirige-se a Albus e lhe entrega uma moringa com água e uma cumbuca com raízes.
— A água e as raízes lhe farão bem.
Albus pega as raízes e as observa com certa estranheza, mas a fome é maior que o estranhamento. Então, come as raízes e bebe a água com avidez. Enquanto o jovem se alimenta, o líder prossegue:
— Hoje nossa alimentação é escassa, mas nunca nos faltam as raízes. Algumas delas resistiram às condições adversas e continuam a nos prover sustento. Mas precisamos reflorestar a terra; só assim teremos fartura novamente.
Ao ver Albus se encolher de frio em seu casaco, o líder comenta:
— O clima vai melhorar! Aqui fora da Bolha, se não andar protegido de dia e de noite, você sentirá na pele os efeitos da devastação. Durante o dia, o sol é escaldante e, com a pele tão clara, você sofrerá mais que qualquer outro; já à noite, sem proteção, o frio castiga. Você teve sorte por termos um casaco sobrando.
— Obrigado pelo casaco! É muito confortável. E também pelas raízes, estavam muito boas.
O jovem entrega a cumbuca e a moringa e segue falando sobre a vida na Bolha:
— Na Bolha, podemos escolher a temperatura para passar o dia. Só escolhíamos dias frios quando queríamos usar casacos novos. Temos muitos lá, mas vejo que vocês têm poucos aqui fora.
— Só sobraram os de couro; os outros se deterioraram com o tempo. Só poderemos fazer novos casacos depois que os animais e as plantas voltarem.
— Mas você não disse que os animais morreram? Como vão trazê-los de volta? Na Bolha, temos robôs de qualquer animal que quisermos.
— Não eram animais, eram máquinas! Não se conectavam com a terra. Os animais de verdade morreram, mas os Ñanderu podem trazê-los de volta.
— Quem são os Ñanderu? E como farão isso?
— São os líderes espirituais do povo Kaiowá. São pajés muito poderosos. Eles podem atrair os animais de volta com seus cânticos. Usam suas vozes, o mimby — uma flauta sagrada — e o mbaraka, o chocalho cerimonial. Eles entoam um canto chamado omopyrũ; é uma melodia majestosa e linda.
Albus segue concentrado, ouvindo aquele conhecimento totalmente novo. Ele imaginava que todo o saber acumulado pela humanidade estava disponível nos arquivos da Bolha, mas os assuntos tratados por Yana Kay nunca existiram lá dentro.
— Mas os animais só voltam se tiverem como sobreviver. Por isso precisamos das florestas.
— O que mais as florestas trarão?
Yana Kay olha para o céu estrelado e sua visão perde-se no infinito por alguns instantes. Então, volta a encarar Albus e, com os olhos marejados, diz:
— Eles nos prometeram trazer a Lua de volta! — Ele aponta para o céu, na direção do Cruzeiro do Sul.
— Eles quem?
— Os Encantados! — Yana Kay faz uma pausa antes de continuar, enquanto a constelação brilha firme naquele céu absoluto. — Está vendo aquele ponto brilhante ao lado da estrela intrusa? É a Lua vindo em nossa direção. Mas Eles nos disseram que ela só vai parar se for atraída pela beleza da Terra. Nós temos que seduzi-la.
— Não consigo entender… Como isso é possível?
— Não precisamos entender tudo, em certas coisas só precisamos acreditar. E você? Como veio parar aqui? Como escapou da Bolha?
— Como eu havia dito, já estava em fuga antes de os robôs pararem.
— Estava fugindo de quem?
— Do Conselho dos Escolhidos. Eles iam me reciclar.
— Não compreendo. O que isso quer dizer?
— Eu seria entregue ao Conselho porque não consegui cumprir minha missão.
— Que missão? E o que fariam com você?
— Eles iriam me neutralizar e usar as partes do meu corpo como energia ou componentes para os robôs. Só meu cérebro não seria reaproveitado. Como ele apresentava falhas, seria estudado para melhoramentos nos próximos chips neurais.
— É uma morte muito triste! Entendo por que estava fugindo. Que falha justificaria matar um homem assim?
— A missão que todos os homens têm na Bolha é se conectar com os robôs. Como eu falhei, meu destino era ser desativado — ele abaixa a cabeça com uma mistura de tristeza e ressentimento.
— Não deveria se ressentir — diz Yana Kay. — Todos falhamos. Nós falhamos ao abordá-lo com violência. Não sabíamos que você estava apenas curioso com relação ao Tambor, mas agora nos redimimos; a vida é assim.
— Não na Bolha da Perfeição. Lá a vida não é assim. Não temos chance para erros, pelo menos não erros que possam afetar o Painel da Perfeição!
— Não sei o que é este Painel da Perfeição. Como pode notar, sabemos muito pouco sobre a vida de vocês dentro da Bolha, e você também sabe pouco sobre nossa sobrevivência aqui fora. Você fala de coisas que não entendemos e nós temos saberes que seu povo perdeu há muito tempo. Continue a contar como chegou aqui, e eu contarei como nós chegamos até este momento.
— Certo! Vou dizer como cheguei aqui. Vou começar pelo Painel da Perfeição. Ele indica a medida da eficiência de cada uma das operações que as máquinas fazem — robôs, drones ou qualquer outra máquina. O mínimo erro é computado. O objetivo do Conselho dos Escolhidos é atingir 100% de eficiência.
Yana Kay segue ouvindo, muito curioso sobre o tal painel descrito por Albus. A plateia se entreolha, sem entender a lógica daquilo.
— Mas voltando à minha fuga… ela começou há muito tempo. No momento em que eu nasci, a Perfeição estava em 99,99999999998%. Na Bolha, as mulheres não têm nenhuma função a não ser a reprodução. O resto de suas vidas é feito de futilidades e passeios. Já os homens têm a função de se conectar com as máquinas, o que não nos impede de viver uma vida de deleite, mas nos confere o poder de conversar na língua dos robôs e, quando necessário, controlá-los.
A audiência em torno de Albus só cresce. Todos querem saber mais sobre a vida daqueles homens e mulheres da Bolha.
— As características dos bebês são determinadas por genes escolhidos meticulosamente, um a um, pela inteligência das máquinas. Assim, as mulheres nascem bonitas, atléticas e obedientes; já os homens são treinados para o controle, muito fortes e belos, com cérebros desenvolvidos para o recebimento de chips neurais de comando — diferente das mulheres, que recebem apenas chips de acesso. Quando um menino nasce, ele é retirado da mãe que, com os hormônios e sentimentos controlados pelo chip, não se importa em ter o filho recém-nascido levado para a incubadora. Lá ele fica até os 10 anos, com o chip implantado no cérebro, recebendo cargas cada vez maiores de informação. A finalidade é acelerar os pensamentos para que possamos, depois, conversar com as máquinas. Só passados 10 anos é que o filho é devolvido à família.
Uma mãe com um bebê, atenta à descrição da Bolha, abraça forte seu pequeno e demonstra medo no olhar ao escutar a fala de Albus.
— Os conselheiros dizem que os chips controladores na cabeça dos homens são a garantia de que as máquinas estão sob controle. Portanto, embora sejam autônomas, se for necessário, podemos comandá-las, acessar seus arquivos e até conversar com elas.
O jovem respira fundo antes de continuar.
— Mas no dia em que eu nasci, um 14 de setembro, o Dia da Perfeição… era a data anual do nascimento dos homens. Os cálculos estatísticos indicam que os virginianos são os mais indicados para o controle das máquinas. Neste dia, todas as mães e pais vão para o Nascedouro da Perfeição para que seus filhos nasçam na mesma data, na mesma hora e no mesmo segundo! São milhares de macas, uma ao lado da outra, com robôs-médicos realizando os partos. Um lugar absolutamente branco, limpo e silencioso. Os chips neurais anestesiam o pensamento das mulheres que, impassivas, expelem seus filhos em uma sincronia perfeita, todas ao mesmo tempo! Os robôs cortam os cordões umbilicais, colocam os bebês em cestos metálicos e eles seguem para a incubadora.
Yana Kay, neste momento, deixa escorrer uma lágrima.
— Depois do nascimento, as mulheres se levantam impassivas e recebem de seus maridos progenitores um buquê de orquídeas brancas. Elas nunca buscam saber para onde seguem seus filhos; em geral, só se preocupam em perguntar que passeio farão depois dali. Mas minha mãe apresentou uma alteração durante meu nascimento; dizem que houve um descontrole na ocitocina e ela, então, sentiu todas as dores do parto.
— Conteve-se sem gritar para não quebrar o silêncio do Dia do Nascimento, mas, quando fui colocado no cesto metálico que me levaria para a incubadora, ela se levantou e gritou desesperadamente, esticando os braços em minha direção. Meu pai, atônito, observou a cena sem saber o que fazer, enquanto o robô-médico segurava minha mãe para reposicioná-la na maca… E eu chorei até ser introduzido na incubadora.
Albus faz uma pequena pausa. O momento de seu nascimento sempre lhe provocou emoções viscerais.
— O Conselho disse que, como ela era mulher, não precisava ser neutralizada. Disseram que as mulheres, mesmo “descontroladas”, não afetam o funcionamento da Bolha, porque elas não interferem na medida do Painel da Perfeição. Mas meu pai não foi poupado. Um controlador de robôs com genes defeituosos precisava ser neutralizado e estudado.
Albus cai no choro e diz, entre soluços:
— Se… eu não tivesse chorado… ele não teria sido neutralizado…
— Deixe que eu continuo por aqui, até que você se recomponha — interrompe Yana Kay. — Não que nossa história seja exatamente um conto feliz que lhe trará conforto, mas você verá que estamos em fuga há muito mais tempo, e talvez isso o console.
O líder respira fundo e retoma o fio da história:
— Contarei algo que nossos ancestrais nos transmitiram. A jornada dos Doze Povos teve início com a ida dos Bilionários para suas casas subterrâneas. Eles, que se autointitularam “Os Escolhidos”, buscaram abrigo no que chamavam de santuários. Partiram montados em enormes cavalos alados brancos; cada animal carregava uma família inteira.
— Naquele momento, os que viviam nas cidades nutriam uma falsa sensação de paz, pois os robôs já realizavam as tarefas dos homens ditos civilizados. Então, acreditaram nos Bilionários quando estes prometeram que, ao fim do retiro em suas casas de cimento e ferro fundido, seria erguida uma nova Terra de Perfeição. As pessoas confiaram cegamente, com as mentes bombardeadas pela ideia de que aqueles homens eram seres sagrados.
Yana Kay fala e balança a cabeça negativamente, sentindo o peso da ilusão semeada pelos Bilionários.
— Nessa época, nossos ancestrais, considerados selvagens, já resistiam escondidos nas florestas. Elas estavam muito devastadas, mas ainda existiam.
O líder faz uma breve pausa, o olhar fixo nas chamas da fogueira, antes de continuar:
— Porém, quando o último daqueles enormes cavalos brancos retornou para a cidade, chegando a uma grande praça para juntar-se aos outros, as pessoas foram tomadas por um sentimento de esperança. Os Escolhidos haviam dito que aqueles animais-estátuas representavam a salvação.
— Naquele dia, no entanto, em vez de esperança, de a humanidade foi tomada por desespero. Todo o suprimento de energia foi cortado, causando um colapso imenso na cidade. Toda a energia restante foi direcionada para os robôs que construíam a Bolha; nada mais, além das máquinas construtoras, funcionava.
Yana Kay faz uma pausa, como se pudesse ouvir os gritos do passado, e continua:
— Os cavalos brancos alados, deixados do lado de fora dos bunkers, foram disputados pelos homens até a morte. Eles acreditaram que, se montassem naqueles animais, seriam conduzidos aos santuários. Os cavalos, antes brancos, ficaram tingidos de vermelho com o sangue dos que se digladiavam na inútil tentativa de fugir para o refúgio dos Escolhidos.
Yana Kay faz outra pausa e olha para seus amigos antes de continuar.
— Passado algum tempo, os homens pararam de lutar pelos cavalos alados; a luta passou a ser pela comida. A escassez era total e a fome dizimou a população da terra. Naquele momento, os cavalos já estavam negros, com o sangue ressecado sob sua superfície.
— Nossos antepassados também se viam em dificuldade, pois os robôs avançavam sobre as matas e florestas. Mas, como estavam acostumados a serem perseguidos por séculos, conseguiam se defender melhor; mesmo assim, muitos morreram.
— A morte devastou o planeta. Os cavalos alados, antes brancos, ficaram verdes, cobertos por fungos; não eram mais desejados por ninguém. As notícias de que os selvagens resistiam fizeram muitos correrem para as poucas matas restantes, mas até os animais já estavam famintos e comiam os humanos que se aventuravam na floresta.
— Os desastres naturais se intensificavam. Os robôs carregavam montanhas inteiras, assim como ilhas e outras estruturas ancestrais, para utilizarem na construção da Bolha. As máquinas formavam hordas para exterminar tudo o que era vivo aqui fora! O som da aproximação dessas hordas lembrava o toque de trombetas.
Albus escuta o relato paralisado, confrontado com a imagem monstruosa que os robôs representam para aqueles homens de fora da Bolha. Yana Kay prossegue, com voz grave, carregada de dor:
— As hordas se sucediam em ondas de destruição. A primeira trouxe o fogo, consumindo o que restava das matas. A segunda lançou montanhas inteiras sobre o mar, o que abriu espaço para acomodar a Bolha. A terceira despejou uma substância viscosa e esverdeada que servia para fixar a estrutura na superfície da Terra, contaminando as águas. A quarta horda se posicionou contra o sol, abrindo imensos painéis para captar o máximo de energia, mergulhando o resto do planeta em total escuridão. Dizem que, antes de ser assentada, a Bolha brilhava com a intensidade de uma estrela, embora ninguém soubesse o porquê de tanto brilho diante de tanta morte.
O líder faz uma pausa, é possível ver o reflexo das chamas em seus olhos marejados.
— Quando a Bolha finalmente tocou o solo, liberou uma nuvem de insetos que infestou a terra, atacando os homens e devorando sua carne. Em seguida, veio a sexta horda: os robôs caçadores, cujo único propósito era exterminar qualquer rastro de vida humana que ainda respirasse.
— Mas a sétima foi o golpe final — continua Yana Kay. — Eram os robôs magnéticos. Eles varreram os campos de batalha, arrancando chips e implantes dos bilhões de corpos caídos. Aqueles poucos sobreviventes que não eram considerados selvagens tiveram o fim mais terrível: sangraram por dentro enquanto o metal em suas veias e cérebros era atraídos para fora, rasgando carne e osso para retornar à Bolha.
Albus empalidece, assombrado ao imaginar uma morte tão dolorosa e cruel.
— Algum tempo depois, os Escolhidos saíram debaixo da terra em naves que zumbiam como abelhas e seguiram para a Bolha. Em pouco tempo, os rios e mares se turvaram de vermelho.
Sons de pessoas chorando, tomadas pela emoção, começam a ecoar ao redor da fogueira. Aquela história mexe com as feridas de todos os ouvintes. Yana Kay prossegue:
— Com a retirada da quarta horda de robôs do céu, acendeu-se um fio de esperança no coração de nossos ancestrais, que puderam voltar a ver o Sol. Mas a alegria do reencontro não trouxe alívio; ele voltou escaldante e mais impiedoso que nunca.
— A noite, por sua vez, tornou-se um breu absoluto com a derrubada da Lua promovida pelos robôs. Eles a despedaçaram e trouxeram seus fragmentos para a Terra com a finalidade de construir a estrutura da Bolha. Depois disso, os rios pararam de correr e as águas do mar ficaram estagnadas, sem ondas, sem movimento algum.
Olhando fixamente para Albus, Yana Kay conclui:
— Você perguntou, no início da nossa conversa, por que este lugar era tão escuro. Agora você sabe. Não temos mais a Lua. Sem ela, as noites são vazias e frias. Evitamos perder o olhar na escuridão, que hoje só nos traz desesperança.
Albus balança a cabeça, demonstrando que compreendeu a magnitude da tragédia. Seu semblante está totalmente consternado enquanto Yana Kay continua:
— Naquele instante, tudo o que restava vivo no planeta eram as doze famílias que deram origem ao nosso clã. Já atravessamos duas gerações de sobreviventes; estamos na terceira e vemos a quarta nascer agora — o líder aponta para as crianças que correm entre os presentes. — Nos últimos tempos, fomos guiados para este lugar, para as proximidades da Bolha. Ainda não conhecemos o propósito dessa jornada.
— É uma história terrível… — murmura Albus. — Ainda bem que vocês a preservaram, pois nada disso consta nos Arquivos da Bolha. O registro mais antigo que conseguimos acessar é sobre a chegada da Bolha através dos “drones-abelhas”.
— Eu imagino — responde Yana Kay. — A destruição gerada para a construção daquele lugar não é uma história bonita de se contar. Seus líderes não devem se orgulhar do que fizeram.
Albus, que já estava entristecido, sente-se profundamente abalado. A vergonha pelo passado de seus ancestrais pesa sobre seus ombros. Percebendo o estado do jovem, o líder suaviza o tom:
— Mas siga com sua história, meu jovem. Conte-nos ciomo chegou até aqui.
Albus, embora um tanto envergonhado por chorar sua própria tragédia diante do sofrimento que os Doze Povos enfrentaram, respira fundo e retoma o relato:
— Como eu dizia, meu pai foi neutralizado. Segui com minha vida, assim como minha mãe, mas ela jamais voltou a ser bem-vista desde o episódio do meu nascimento. Superamos o isolamento juntos; éramos muito unidos, já que as outras mulheres a evitavam. A Bolha nos provia distrações constantes para que não pensássemos no que faltava. Naquela época, o Painel da Perfeição marcava 99,99999999999% de eficiência das máquinas.
— Sim. Como eu disse, nunca fomos aceitos, mas a perseguição real começou há pouco tempo. Eu estava em uma operação de rotina, controlando um grupo de drones através do pensamento, quando, subitamente, fui tomado por uma onda de tristeza — um sentimento que os outros não conheciam. Foi nesse instante que o meu drone atacou outro, sem que eu tivesse emitido qualquer comando. Ao ver o choque entre as máquinas, o pânico me dominou e eu corri. Naquele momento, no painel, a perfeição caiu para 99,99999999998%.
Albus narra sua história gesticulando com intensidade, enfatizando os momentos mais dolorosos que ainda mexem com suas emoções.
— Eles não vieram atrás de mim de imediato. Mas, quando cheguei em casa, minha mãe já havia recebido a ordem para me entregar ao Conselho. Com tantos drones vigiando e os sentimentos de todos sob o controle dos chips neurais, a obediência era absoluta, mas não para ela. Minha mãe decidiu apagar o meu localizador e me disse que, a partir daquele instante, eu teria que fugir. Não sei ao certo o que ela pretendia; afinal, não se pode fugir de uma Bolha fechada, por maior que ela fosse.
O jovem faz uma pausa, o olhar fixo em um ponto invisível no passado.
— Então, ela me perguntou algo intrigante: quis saber como haviam conseguido apagar da minha memória o dia em que acessei um drone vigia. Ela disse que, naquele dia, eu havia visto o vulto de uma pessoa fora da Bolha. Devia ser um de vocês.
A plateia, que acompanhava a conversa em silêncio absoluto, solta um suspiro coletivo de espanto.
— Ohhhhhhh… — O temor de serem vistos por um drone era o maior pesadelo dos Doze Povos.
— É possível… — murmura Yana Kay. — Se foi recente como você diz, pode ter sido no dia em que levaram nosso Tambor. Naquele dia, roubaram o instrumento sagrado, mas, para nossa sorte, não capturaram ninguém. Teriam nos exterminado se nos encontrassem.
— Nunca saberei quem era, porque fui levado para a sala de reparos — continua Albus, a voz trêmula. — Eles me forçaram a reviver o momento exato em que o vulto aparecia. Ordenaram que eu fixasse aquela imagem na mente e, em seguida, aplicaram descargas elétricas na minha cabeça. Foi assim que o vulto desapareceu da minha memória.
Os olhos de Albus brilham, marejados ao falar da mãe que ele agora sabe que não poderá resgatar. Ele respira fundo e descreve o seu ato final:
— Ela chamou um robô auxiliar e, com uma agilidade desesperada, arrancou dois fios da máquina. Naquele instante, no painel, a perfeição caiu para 99,99999999997%. Ela pressionou os joelhos sobre minha barriga e gritou: “Ligue o localizador! Concentre-se nas coordenadas e acesse seu número de identificação!”. Eu obedeci, acessando o GPS e o código do meu chip cerebral, enquanto ela chorava copiosamente. Minha mãe sabia que, dali em diante, não nos veríamos mais. Quando ela encostou os fios nos terminais da minha cabeça, o GPS e minha identidade foram sumindo aos poucos… Lembro que eu gritava, mas não consigo mais lembrar o que eu pensei naquele momento.
Em Ukhu Pacha, o Ser de Luz dirige seus pensamentos a Colombo:
— O que ele gritou naquele dia foi: — “Minha localização é 42.3314° N, 83.0458° W 160m, meu registro cerebral é HB@YD091563… Minha localização é 4X.33X4° X, 8X.04X8° X 160m, meu registro cerebral é HBXXDX915X3. Minha localização é XX.XX4° X, XX.XXXX° X 1XXX, meu registro cerebral é HBXXXXXXXX x. HB…HB…HB…HX…HX…H…H…H.”
Albus fecha os olhos, tentando acessar o que restou em sua mente. — Quando tento alcançar essa memória, apenas o som Human… Human… Human… ecoa em meu pensamento.
— O que significa “Human”? — pergunta Yana Kay, curioso com o termo estrangeiro.
— “Humano”, na língua da Bolha. Todo código neural começa com as letras HB: Human Brain. Falamos apenas inglês lá dentro. — Albus aponta para a própria têmpora, batendo nela três vezes. — Eu consigo falar com vocês porque meu chip identifica os padrões da sua língua e os traduz simultaneamente. Ele diz que estamos falando em Quechua.
— Sim, meu jovem. É a língua que nos une aqui fora, embora cada povo preserve sua língua entre os seus.
— Na Bolha, nada disso existe. Tudo é padronizado. Temos a mesma língua, a mesma cor de pele, o mesmo tipo físico. Só eu me sentia diferente… Eu amava me comunicar com as máquinas; era o único momento em que meus olhos ficavam azuis, como os de todos os outros.
— Aqui, você terá que se acostumar com seus olhos negros — observa Yana Kay, com um meio sorriso. — Não há máquinas para controlar. Mas veja ao redor: aqui, você finalmente faz parte da maioria.
Empolgado com a conexão, Albus tenta acessar seus componentes internos. Seus olhos começam a oscilar de cor, até projetarem um holograma com a imagem de sua mãe. Yana Kay sobressalta-se, recuando bruscamente. A plateia solta um grito coletivo e todos se levantam, temendo uma investida tecnológica. Albus interrompe a projeção imediatamente.
— Não faça mais isso! — ordena o chefe. — Pode atrair as máquinas.
Desconcertado, o jovem baixa a cabeça. — Peço desculpas, Yana Kay… Eu não quis assustar. Não farei de novo.
O líder retoma, lentamente, seu lugar na pedra.
— Tudo bem, meu jovem. Você disse que as máquinas se desligaram, mas passamos gerações fugindo dessas coisas, que ainda nos assustam. Mas, prossiga com sua história.
— Como eu dizia — continua Albus, agora mais acanhado —, depois que minha mãe apagou o meu código e o meu GPS, passei a viver como um fugitivo na Bolha, e ela foi condenada à neutralização. O Conselho decidiu que uma mulher “histérica” ameaçava a Perfeição. Mas, antes que a sentença fosse executada, o Painel atingiu milagrosamente os 100% de eficiência. Foi o dia de maior glória na Bolha; a celebração foi algo que nunca se viu.
O semblante do jovem torna-se melancólico.
— Eu não pude participar. Naquele dia, eu já havia cruzado as fronteiras permitidas aos homens e me escondido no setor dos robôs. Vi a festa apenas através dos arquivos visuais das máquinas que estavam na celebração. Mas, no auge da comemoração, elas pararam de funcionar. As máquinas anunciaram que iriam se desativar para não destruir o que restava do planeta. Vaguei por dias entre robôs inertes até ouvir um estrondo ensurdecedor. Foi quando a Bolha rachou. Naquele dia, fiz minha última refeição lá dentro, comendo o que sobrou nas bandejas dos robôs-garçons, porque os habitantes da Bolha sempre desperdiçavam muita comida. Nunca havia passado fome até o momento em que atravessei aquela fenda na parede e conheci o vazio deste mundo.
Durante a fala, seus olhos brilham de satisfação e júbilo, orgulhoso pela fuga; mas, rapidamente, ele esmorece e redireciona a conversa.
— Sou magro, não sou forte como os outros da Bolha. Todos diziam que era por causa dos eventos ocorridos no meu nascimento, mas ninguém se importava muito com minha imperfeição física, porque ela não era contabilizada no Painel da Perfeição. O que se passava dentro de mim não importava…
Ele cai no choro e limpa as lágrimas no casaco emprestado. — Me desculpe chorar por coisas tolas!
— Não se desculpe, jovem! — responde Yana Kay. — Sua sociedade era muito doente. Você tem todos os motivos para ficar triste. Uma sociedade que não acolhe, desmorona.
O corpo de Albus já está fora da Bolha, mas suas ideias ainda não. Ele prossegue, balançando a cabeça positivamente em movimentos curtos:
— Eles acolhiam as máquinas! Elas sempre foram bem acolhidas por todos, porque o funcionamento perfeito delas garantia a Perfeição…
Ele para de balançar a cabeça lentamente, enquanto processa as palavras do líder.
— É verdade, Yana Kay. As pessoas não se acolhiam. Por isso desmoronamos. Por isso minha mãe era tão estranha aos olhos de todos!
Albus chora de novo, mas agora sem culpa. O líder se levanta e abraça o jovem.
— Deságue suas tristezas… Isso o deixará mais leve. Hoje teremos festa de novo. É um novo tempo. Estamos no tempo da Renascença. É hora de celebrar.
Após o abraço de Yana Kay, já ao som do Tambor, Albus enxuga as lágrimas. Ele observa a aglomeração que se forma ao redor do instrumento e fica admirado com a desenvoltura das danças que a música desperta. Em pouco tempo, ele também balança o corpo; não tem a mesma agilidade dos outros, mas se sente acolhido e sorri. Ele repara em uma frase escrita no Tambor e tenta traduzi-la, mas recebe a seguinte resposta de seu arquivo cerebral: “ERRO! LÍNGUA MORTA!”.
Albus se aproxima do líder, que dança ao lado de uma família com cinco crianças. É uma dança bonita; eles giram com os braços abertos em um momento de felicidade e celebração. Yana Kay percebe que o jovem requer sua atenção, diminui o ritmo e se aproxima.
— O que está escrito no Tambor? — pergunta Albus.
O líder, que é alto e forte, está encurvado para melhor ouvir o jovem. Ao ouvir a pergunta, ele se espanta. Arregala os olhos, estufa o peito e fica ereto, mantendo o olhar fixo nos olhos de Albus.
— E seu tradutor? O que houve com ele?
— Ele me disse: “ERRO! LÍNGUA MORTA!”.
— Nós representávamos isso para vocês antes da Bolha: um erro — responde Yana Kay. — Algo que podiam matar e destruir; eliminar a cultura, calar a língua, enterrar os cultos e as celebrações. Suas máquinas e seus chips traduzem apenas o que vocês ensinaram a eles. A frase do Tambor é antiga. Estava em uma praça de uma cidade que se chamava Cajamarca. Lá estava escrito: “Nuestras raíces ni se agotaron ni desaparecieron con la conquista”.
— No Tambor, a frase está escrita em Tupi — continua o líder. — É de um outro tempo de lutas, mas a ancestralidade resiste a tudo! Resistiu à invasão das caravelas, resistiu à era dos robôs e resistiu à Bolha da Perfeição, porque a ancestralidade sempre renasce.
Enquanto a festa acontece lá fora, estão recolhidas dentro de uma das ocas do acampamento: Jiide e sua mãe, Eiori; Monoì, mãe de Comuê; Arsapay, a Pajé parteira; e Canode e Inaiê, as duas ajudantes da Pajé.
As ocas fazem parte da engenharia de sobrevivência de quem vive fora da Bolha. São estruturas desmontáveis feitas de peças de bambu, entrelaçadas e amarradas, que podem ser configuradas de várias formas. Podem ser montadas e desmontadas com agilidade, o que possibilita fugir rapidamente caso os robôs se aproximem. Essas estruturas formam casas de diversos tamanhos e finalidades. A maior parte serve como dormitório para as famílias, onde cada grupo monta sua moradia com as peças que recebe. Outras estruturas, como o Contemplário, são montadas em comunidade, pois são maiores e demandam mais tempo para a execução.
Yana Kay olha para uma oca mais afastada, de onde vem uma luz suave de lamparinas, e se dirige a Albus:
— Enquanto você nos contava sobre a Bolha, Jiide, uma de nossas filhas do povo Uitoto, prepara-se para trazer vida ao mundo dentro daquela Opy. Ela está cercada por suas irmãs e pela sabedoria de nossos antepassados.
As ocas fazem parte da engenharia de sobrevivência de quem vive fora da Bolha. São estruturas desmontáveis feitas de peças de bambu, entrelaçadas e amarradas, que podem ser configuradas de várias formas. Podem ser montadas e desmontadas com agilidade, o que possibilita fugir rapidamente caso os robôs se aproximem. Essas estruturas formam casas de diversos tamanhos e finalidades. A maior parte serve como dormitório para as famílias, onde cada grupo monta sua moradia com as peças que recebe. Outras estruturas, como o Contemplário, são montadas em comunidade, pois são maiores e demandam mais tempo para a execução.
Yana Kay olha para uma oca mais afastada, de onde vem uma luz suave de lamparinas, e se dirige a Albus:
— Enquanto você nos contava sobre a Bolha, Jiide, uma de nossas filhas do povo Uitoto, prepara-se para trazer vida ao mundo dentro daquela Opy. Ela está cercada por suas irmãs e pela sabedoria de nossos antepassados.
A estrutura para o nascimento das crianças chama-se Opy e foi montada já prevendo o nascimento daquela criança. É uma construção larga e alta para comportar todas as mulheres responsáveis pelo parto, aberta nos dois lados para receber ventilação e a iluminação vinda da fogueira principal. Para reforçar a luz que chega fraca e trêmula, algumas lamparinas de óleo são usadas em seu interior.
Arsapay, a Pajé parteira, coordena o que precisa ser feito. Quando os tambores começam a tocar, ela se dirige a Jiide, que está deitada na rede. Estende a mão para ela e, com um sorriso acolhedor, diz:
— Você já está pronta. Pode sair da rede agora; vamos posicioná-la no nascedouro. O espírito da serpente guiará a chegada desse espírito da floresta até o seu renascimento.
Jiide é ajudada por Arsapay e pelas mulheres que a auxiliam a se dirigir ao nascedouro, uma estrutura simples com um bastão apoiado em dois outros pedaços de madeira, onde a parturiente apoia as costas e os braços para ficar na posição de cócoras ou de joelhos. Há um tapete com o símbolo do caracol, representando Pacha Mama, e um acolchoado para acomodar a criança.
Jiide é posicionada de cócoras. Canode e Inaiê ficam atrás da parturiente, enquanto a Pajé permanece à sua frente:
— Respire no seu ritmo. Use a força que precisar; você está preparada para ser mãe. Todas as outras mães estão aqui para lhe acolherem nesta jornada, e a mãe natureza está aqui para ajudá-la.
Arsapay fala enquanto desenha a silhueta da parturiente no ar com seu cajado e continua traçando o caracol de Pacha Mama:
— Sua filha está pronta para receber sua força, e você, a dela.
Também afastados da festa, mas do lado de fora da Opy, esperam ansiosos pelo nascimento Comuê, o pai da criança; Usumatiaì, pai de Comuê; Naìnomo, pai de Jiide; e Rudá, o Pajé. Eles estão ao redor de um braseiro, que serve mais para aquecer do que para iluminar. Mesmo com pouca luz, estão radiantes e felizes por aquele bebê, tão desejado, que está prestes a nascer em um dia tão importante: a Celebração da Renascença.
Eles não puderam ouvir a história de Albus, mas o som dos tambores e as cantorias que se iniciaram chegaram até eles. Comuê, sentindo o peso da responsabilidade, volta-se para o Pajé:
— Rudá, quando chegaremos às sementes? Está cada vez mais difícil conseguir comida, roupas e mantimentos. Com tantas crianças nascendo, como faremos para sustentar a todos? Tenho medo de não ser um bom pai… de não conseguir prover o sustento para o meu filho.
O Pajé olha para o jovem com benevolência e responde:
— Entendo sua preocupação, mas saiba que esse temor apenas demonstra que você já é um bom pai. De hoje em diante, suas prioridades mudarão; muitas coisas perderão o sentido diante da vida que chega. O tempo com sua família deve ser mais precioso do que qualquer outra tarefa. Você será dispensado de várias atividades da comunidade, pois, enquanto seu filho for um bebê, sua missão será cuidar do ninho. Aproveite cada momento, pois eles crescem depressa.
Rudá fez uma breve pausa, observando as chamas do braseiro, antes de continuar:
— Depois, quando a criança crescer, você retomará suas funções aos poucos, mas precisará sempre reservar tempo para criá-la. É nessa fase, até a juventude, que os laços afetivos mais profundos são tecidos. Somente assim, quando ele se tornar um adulto, vocês serão capazes de ouvir e serem ouvidos um pelo outro. É dessa forma que edificamos nossa comunidade.
— Mas, e quanto à comida? — insistiu Comuê, ainda apreensivo.
— Quanto aos recursos, fique tranquilo. Pacha Mama está ferida e dilacerada, é verdade, mas ela ainda proverá o necessário. Seja um bom pai e a Mãe Terra o retribuirá.
— Suas palavras me confortam, Rudá. Sou grato por poder contar com sua sabedoria.
— Eu é que agradeço, meu filho. Espero que, um dia, você transmita esse conhecimento a quem precisar.
— Assim o farei — prometeu o jovem, baixando a cabeça. — Peço desculpas pelos meus pensamentos pequenos.
— Não precisa se desculpar. Você está apenas ansioso. Quando tiver seu filho nos braços, sentirá uma força que desconhece; entenderá que, por maior que seja a dificuldade, você a vencerá. Fará qualquer coisa pelos seus, e o espírito de comunidade florescerá em seu coração.
— Sei que o senhor está certo — disse Comuê, com um lampejo de esperança nos olhos. — Mas ainda espero que nossas condições melhorem, para que os que estão chegando não sofram tanto como nós.
— Tudo vai melhorar, jovem. Já não temos as máquinas nos perseguindo; isso já é um começo. Acredito que a vida encontrará seu caminho com o tempo.
O jovem abraça o líder com força, sentindo mais leve.
— Obrigado, Rudá.
Pouco depois de desfazerem o abraço, o choro vigoroso de um bebê rompe o silêncio da noite. Eles correm para a Opy, onde Arsapay já os aguarda na entrada, com o rosto iluminado: — Venham! É uma menina linda!
Comuê, com um sorriso que parecia não caber no rosto, corre para Jiide. Ela repousa na rede, aninhando a pequena contra o peito. O pai beija a testa da filha e, em seguida, a da mulher; um gesto silencioso de gratidão e alívio. Ao pegar a menina nos braços, nota sua força: é rechonchuda, de pele bronzeada, cabelos e olhos negros como as noites profundas fora da Bolha. Mesmo recém-nascida, mantém o pescoço e a postura firmes, observando o mundo com uma curiosidade precoce. Comuê a ergue, apresentando-a à comunidade e recebendo uma onda de felicitações.
Após os cumprimentos, ele devolve a pequena ao colo da mãe. Rudá aproxima-se e, ao ver os olhos muito abertos e atentos da criança, solta uma risada genuína:
— Ela vai morder todas as outras crianças!
— Por que diz isso, Pajé? — perguntou Comuê, intrigado.
— Gordinha assim, todos que cuidarem dela vão querer morder essas bochechas. Ela vai aprender a morder cedo, mas depois passa — brincou Rudá, provocando risos em todos.
Passado esse momento de alegria, o Pajé inicia um ritual sagrado. Seguindo a tradição que se fundira entre os povos, ele canta e defuma a criança, soprando suavemente sobre ela. Rudá parece ler algo invisível no ar, buscando identificar o espírito que acabara de encarnar. Após um longo silêncio, ele se vira para os presentes e anuncia com solenidade: — É Guamá. O nome dela é Guamá, filha dos rios.
Comuê aproxima-se da filha e sussurra:
— Oi, Guamá. Sou seu pai, Comuê. Vou levar você para conhecer nossa gente. Ele a toma nos braços e sai da Opy em direção à fogueira, gritando para que todo o acampamento o ouça:
— É GUAMAAAAAÁ! ELA NASCEU!
O som do tambor e as cantorias cessam subitamente. Todos correm para ver a nova integrante do clã, exceto Albus e Yana Kay. O jovem da Bolha observa a cena boquiaberto, sem entender aqueles sentimentos autênticos de felicidade. Na Bolha, os nascimentos são cirúrgicos e apáticos; o que ele vê ali é uma explosão de vida.
No plano de Ukhu Pacha, Colombo, que assiste a tudo ao lado do Ser de Luz, perguntou em um sussurro: — É ela? — Sim, é ela! — confirmou a entidade. No plano terrestre,
Yana Kay parece ler as dúvidas de Albus e comenta: — Eles renascem aqui para nos guiar. — Eles quem? — quer saber o jovem. — Os espíritos que vêm do plano onde a cultura ancestral foi preservada. É um lugar fabuloso, descrito pelos nossos Pajés, Xamãs e Yatiris. Lá, o ser humano domina plenamente a vida em harmonia com a natureza. Guamá nos guiará. Ela traz o conhecimento que necessitaremos para encontrar as sementes e sobreviver.
Yana Kay sorri, esperançoso: — Vamos lá ver Guamá! O nome dela significa “filha dos rios”. Tomara que seja um sinal de que os rios voltarão um dia. — Tomara, Yana Kay — responde Albus, acompanhando-o. — Você já viu um rio de verdade? — Não, meu jovem. Só conheço as histórias dos antigos.
— Na Bolha tínhamos rios… de mentira. Eu adorava fazer piqueniques com minha mãe nas margens artificiais. Drones-formigas atacavam nosso lanche e a gente ria tentando espantá-los.
— Um dia teremos rios reais, Albus. E formigas de verdade nós já temos aos montes por aqui — riu o líder.
Ao se aproximarem, Comuê exibe a filha com orgulho. Yana Kay pousa a mão no ombro do novo pai e olha para Guamá: — Parabéns! Agora você é responsável pela continuidade do nosso povo e da nossa jornada.
— Lutaremos por isso — afirma Comuê, firme.
— TAKY ONGOY CHIRA! — exclama o líder, invocando o espírito da renascença das sementes.
— TAKY ONGOY CHIRA! — responde Comuê.
Neste momento, um coro de crianças se aproxima de Comuê, Guamá, Yana Kay e Albus, e entoa um cântico alegre enquanto eles caminham de volta à Opy. Comuê entra para devolver a filha ao descanso junto à mãe, enquanto o coro continua do lado de fora. Momentos depois, as duas avós saem da estrutura feita de bambu com sorrisos serenos, baixando as mãos lentamente em um sinal de que mãe e filha finalmente descansam. O coro silencia e o acampamento, em paz, começa a se recolher para suas Ocás, sob a luz das estrelas e o calor da grande fogueira.